Dom Paulo Evaristo Arns: Ausência e Presença

09/10/2017 - 18:30
“Para simplificar, o que é a alma no corpo são no mundo os Cristãos” (Carta a Diogneto, VI, 1). Belíssima passagem é essa pérola da Patrística. Dom Paulo Evaristo Arns, OFM, e outros estudiosos da Igreja Primitiva, nos anos posteriores ao Concílio Ecumênico Vaticano II, presentearam-nos com notáveis e profundas pesquisas da Igreja Primeva. Inegável foi a atuação de Dom Paulo Evaristo Arns, OFM, diante do seu tempo, atuando magistralmente na Igreja e na Sociedade. Sangue imigrante alemão, nascido em Forquilhinha, interior catarinense, em 14 de setembro de 1921. Filho de Gabriel Arns e Helena Steiner. Franciscano que estudou por longos anos na França. Versado em Latim e Grego. Profundo conhecer da Igreja Primitiva. Em 1952 defendeu sua Tese intitulada: “A técnica do Livro segundo São Jerônimo”. O objeto de sua pesquisa esteve centrado na técnica do Livro. Examina o papel de uma ferramenta, o objeto Livro, como mediadora da comunicação humana.
No século IV, período em que viveu São Jerônimo, conhecido na Patrística como Padre Latino, a técnica usada para escrever era o rolo, de difícil manuseio e pouca presença entre seus pares. São Jerônimo se serve do códex, instrumento capaz de chegar em maior número aos seus de sua época. “Gostaria de merecer a graça de alegra-me convosco em tudo. Bem, por isso é que convém glorificar de toda a sorte a Jesus Cristo que vos tem glorificado, para que, reunidos em uma só submissão, sujeitos ao bispo e ao presbitério, vos santifiqueis em todas as coisas” (Santo Inácio de Antioquia aos Efésios, II, 2). Essa belíssima passagem foi endereçada a Igreja, também presente na Arquidiocese de São Paulo. Tradução de Dom Paulo Evaristo, homem de cultura que legou suas pesquisas a posteridade. Pastor abnegado e bispo reconhecido e amado, disponibilizando-se junto ao seu Presbitério.
Dom Paulo Evaristo esteve em Monte Alto por ocasião da minha Ordenação Presbiteral, ocorrida em 03 de dezembro de 1988. Momento de profunda delicadeza de ordenar um candidato ao presbitério na sua terra natal. Foi uma felicidade para minha Família e todos os montealtenses. Foi a primeira vez que um Cardeal esteve na Cidade Sonho. Dessa sua presença surgiram muitas vocações sacerdotais e religiosas para a Igreja, principalmente par a Diocese de Jaboticabal. “Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, com à lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja” (Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Esmirnenses, VIII, 1). Dom Paulo Evaristo sempre foi muito presente junto aos seus padres. Os conhecia pelo nome e a todos dedicava carinho especial. Meses depois da minha Ordenação Presbiteral aceitou de pronto para presidir a Santa Missa por ocasião dos 50 anos de Ereção Canónica da Paróquia São Paulo Apóstolo do Belém. Tempos difíceis para a comunidade. Porém, ele nos confortou na esperança e nos animou para que reerguêssemos a comunidade na sua dinamicidade e crescimento na Fé. Dom Paulo Evaristo Arns enviou-me em 1998 para Roma para eu continuar meus estudos em História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana. Minha Tese Doutoral foi conhecer melhor a Sociedade Paulista no Século XIX e perceber a atuação evangelizadora da Igreja, sobretudo, com a presença dos padres seculares italianos que aqui trabalharam entre 1873 e 1894, no Episcopado de Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho.
Dom Paulo Evaristo Arns marcou profundamente a Igreja em São Paulo, com as resoluções emanadas do Concílio Ecumênico Vaticano II. Procurou incentivar as proposições dos Documentos do Concílio junto às comunidades, para que elas lessem, entendessem, vivessem e sentissem como Igreja. Desde 1998, tornou-se Emérito da Igreja em São Paulo, mantendo uma vida reclusa, até seu falecimento ocorrido em 14 de dezembro de 2016. Há quase um ano do seu falecimento, sua presença ainda se faz sentir entre nós. Sempre será lembrado em tantos momentos e por tantas atividades que desenvolveu no seu pastoreio comprometido e dialogante. Que Deus o abençoe dom Paulo Evaristo Arns, OFM. “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa
glória: nele está nossa vida e ressurreição; foi ele que nos salvou e libertou” (Gl 6, 14).
 
Padre José Ulisses Leva