Como posso descobrir a minha vocação?

24/02/2017 - 14:30

Certo autor russo fala de um homem que, por estar sofrendo uma crise interior, decidiu passar uns dias em silêncio mosteiro. Chegando lá, atribuíram-lhe um quarto e colocar uma porta um pequeno letreiro com o seu nome.

Durante a noite, como não conseguisse conciliar o sono, decidiu dar um passeio pelo imponente edifício do claustro. À sua volta, reparou que não havia luz suficiente no corredor para ler o nome do letreiro que havia na porta de casa dormitório. Percorria o corredor, mas todas as portas pareciam-lhe iguais. Para não despertar os monges, passou a noite inteira dando voltas no enorme e escuro corredor.

Com a primeira luz do amanhecer, finalmente conseguiu distinguir a porta do seu quarto, diante da qual havia passado tantas vezes, sem conseguir reconhece-la. aquele homem pensou que todo onset deambular daquela noite era uma figura do que acontece com frequência em nossas vidas: passamos muitas vezes diante da porta que conduz ao caminho para o qual estamos chamados, mas nos falta luz para vê-lo.

Saber qual é a nossa missão na vida é a questão mais importante que devemos resolver. A vocação é o encontro com a verdade sobre nós mesmos. O encontro que proporciona uma inspiração básica da vida, da qual nasceu compromisso, a missão principal de cada um e a gente se percebem os planos de Deus para a própria vida.
O Papa Francisco falou disso aos jovens durante a JMJ , no Rio de Janeiro em julho de 2013: "Deus chama para escolhas definitivas, Ele tem um projeto para cada um: descobri-lo, responder à própria vocação, significa caminhar na direção da realização jubilosa de si mesmo. A todos Deus nos chama à santidade, a viver a sua vida, mas tem um caminho para cada um." Essa proposta do Papa contrasta com a mentalidade do nosso tempo, a chamada cultura do provisório: tendência a não se prender a nada, a não se comprometer nunca. " Na cultura do provisório, do relativo, muitos pregam que o importante é 'curtir' o momento, que não vale a pena se comprometer por toda a vida, fazer escolhas definitivas, 'para sempre', Uma vez que não se sabe o que reserva ou amanhã."

É evidente que há uma grande dose de medo no coração de um jovem ou de uma jovem, no momento de tomar uma decisão definitiva na sua vida. Tanto para se casar como para decidir entregar sua vida inteiramente a Deus, no seminário, na vida religiosa ou no celibato laical. Há medo de se comprometer. Mas o Papa nos anima não ter medo: "Não tenham medo daquilo que Deus lhes pede! Vale a pena dizer 'sim' a Deus. N'Ele está a alegria! Queridos jovens, talvez algum de vocês ainda não veja claramente o que fazer da sua vida. Peçam isso é o senhor; Ele lhes fará entender o caminho."

O Arcanjo São Gabriel anuncia a vocação de Maria, com uma legue saudação: "Ave, cheia de graça, o senhor é contigo!" (Lc 1, 28). Tendo consciência da grandeza de um chamado Divino, Maria perturbasse, mas o Arcanjo anima: "Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus!" (Lc 1, 30). Logo que se esclarece como se realizar a sua vocação de Mãe de Jesus, Maria coloca toda vida nas mãos de Deus: "Faça sem mim segundo a tua Palavra" (Lc 1, 38).
Uma coisa é certa: Deus não chama uma pessoa para uma determinada vocação sem lhe conceder as condições necessárias. Portanto, é preciso examinar-se na oração diante de Deus e pedir ajuda de um orientador espiritual para verificar se se reúnem as condições e aptidões adequadas essa vocação. Por isso, o fato de uma pessoa - seguindo com docilidade os conselhos da direção espiritual - considerar seriamente a possibilidade de ser chamada a um determinado caminho de entrega a Deus, já indica que é bastante provável que esse seja o seu caminho. O motivo que conforta e anima a corresponder à vocação é considerar que quando Deus, dá a uma pessoa a luz da vocação, também lhe dá a graça necessária para corresponder e para decidir com generosidade.

Há um certo paralelismo na vida de muitas pessoas no momento de discernir sua vocação: primeiramente, para receber as luzes de Deus que chama, é preciso cultivar uma vida de oração pessoal, meditação da Palavra de Deus e recepção frequente dos sacramentos da Confissão e da Eucaristia. Além disso, receber e seguir os conselhos orientações de uma pessoa experiente no aconselhamento espiritual.

Inspirados no exemplo de Maria, esperamos que muitos jovens, neste Ano Nacional Mariano, encontrem luzes claras de sua vocação na Igreja.
 

Dom Carlos Lema Garcia

Bispo Auxiliar e Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade

​Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO de 22 de fevereiro a 2 de março.