Um clamor contra o mal

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06/06/2019 - 16:30

Um clamor contra o mal

«O último pedido», um «grito arremessado contra» aquele «mal misterioso que penetra silencioso nas chagas da história», ganhando forma nas «experiências mais diversas: os lutos, a dor inocente, a escravidão, a instrumentalização, o pranto das crianças»: o Papa Francisco resumiu assim o significado da invocação final do Pai-Nosso na audiência geral de quarta-feira, 15 de maio, na praça de São Pedro.

Amados irmãos e irmãs, bom dia!

E eis que chegamos ao sétimo pedido do “Pai-Nosso”: «Livrai-nos do mal» (Mt 6, 13b).

Com esta expressão, quem reza não só pede para não ser abandonado no tempo da tentação, mas suplica também para ser libertado do mal. O verbo grego original é muito forte: evoca a presença do maligno que tende a agarrar-nos e a morder-nos (cf. 1 Pd 5, 8) e do qual se pede a Deus a libertação. O apóstolo Pedro diz também que o maligno, o diabo, está à nossa volta como um leão furioso, para nos devorar, e nós pedimos a Deus que nos liberte.

Com esta dúplice súplica “não nos deixeis cair em tentação” e “livrai-nos”, sobressai uma característica essencial da oração cristã. Jesus ensina aos seus amigos a colocar a invocação do Pai diante de tudo, até e sobretudo nos momentos nos quais o maligno faz sentir a sua presença ameaçadora. Com efeito, a oração cristã não fecha os olhos sobre a vida. É uma prece filial e não uma oração infantil. Não está encantada pela paternidade de Deus, a ponto de esquecer que o caminho do homem está cheio de dificuldades. Se não houvesse os últimos versos do “Pai-Nosso” como poderiam rezar os pecadores, os perseguidos, os desesperados, os moribundos? A última petição é precisamente o nosso pedido quando estivermos no limite, sempre.

Há um mal na nossa vida, que é uma presença incontestável. Os livros de história são o desolador catálogo de quanto a nossa existência neste mundo tem sido uma aventura muitas vezes fracassada. Há um mal misterioso, que certamente não é obra de Deus mas que penetra silenciosamente nas dobras da história. Silencioso como a serpente que leva o veneno sorrateiramente. Nalguns momentos parece que domina: em certos dias a sua presença parece até mais nítida do que a da misericórdia de Deus.

O orante não é cego, e vê claramente diante de si este mal tão pesado, e em contradição com o próprio mistério de Deus. Divisa-o na natureza, na história, até no seu coração. Pois não há ninguém entre nós que possa dizer que está livre do mal, ou que não se sente pelo menos tentado. Todos nós sabemos o que é o mal; todos sabemos o que é a tentação; todos experimentámos na nossa pele a tentação, de qualquer pecado. Mas é o tentador que nos move e nos leva ao mal, dizendo-nos: “faz isto, pensa isto, vai por aquele caminho”.

O último brado do “Pai-Nosso” é lançado contra este mal “com orlas amplas”, que mantém debaixo do seu guarda-chuva as experiências mais diversas: os lutos do homem, o sofrimento inocente, a escravidão, a instrumentalização do outro, o pranto das crianças inocentes. Todos estes eventos protestam no coração do homem e tornam-se voz na última palavra da oração de Jesus.

É precisamente nas narrações da Paixão que algumas expressões do “Pai-Nosso” encontram o seu eco mais impressionante. Jesus diz: «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres» (Mc 14, 36). Jesus experimenta totalmente o trespasse do mal. Não só a morte, mas a morte de cruz. Não só a solidão, mas também o desprezo, a humilhação. Não só a má vontade, mas também a crueldade, a perseguição contra Ele. Eis o que é o homem: um ser devotado à vida, que sonha o amor e o bem, mas que depois se expõe continuamente ao mal, a si mesmo e aos seus semelhantes, a ponto que podemos ser tentados a perder a esperança no homem.

Queridos irmãos e irmãs, assim o “Pai-Nosso” assemelha-se a uma sinfonia que pede para ser realizada em cada um de nós. O cristão sabe quanto é tentador o poder do mal, e ao mesmo tempo experimenta como Jesus, que nunca cedeu às suas lisonjas, está da nossa parte e vem em nossa ajuda.

Assim a oração de Jesus deixa-nos a herança mais preciosa: a presença do Filho de Deus que nos libertou do mal, lutando para o converter. Na hora do combate final, ordena a Pedro que enfie a espada na bainha, garante ao ladrão arrependido o paraíso, a todos os homens que estavam à sua volta, inconscientes da tragédia que estava a ser consumada, oferece uma palavra de paz: «Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem» (Lc 23, 34).

Do perdão de Jesus na cruz jorra a paz, a verdadeira paz vem da cruz: é dom do Ressuscitado, um dom que Jesus nos concede. Pensai que a primeira saudação de Jesus ressuscitado é “a paz esteja convosco”, a paz nas vossas almas, nos vossos corações, nas vossas vidas. O Senhor concede-nos a paz, dá-nos o perdão, mas nós devemos pedir: “livrai-nos do mal”, para não cair no mal. Esta é a nossa esperança, a força que Jesus ressuscitado nos concede, que está aqui, no meio de nós: está aqui. Está aqui com aquela força que nos concede para irmos em frente, e promete que nos liberta do mal.

Papa Francisco

(Fonte: Edição 018, do jornal “L’osservatore Romano”, de 21 de maio de 2019, p. 03).