Agosto, mês vocacional

23/08/2017 - 15:00

No primeiro domingo de agosto, celebramos o “Dia do Padre”. Mas, afinal, quem é o padre? São Paulo responde: é o administrador dos mistérios de Deus (cf. 1Cor 4, 1). O padre não é um simples prestador de serviços religiosos. Ele é o ‘administrador’ dos mistérios de Deus. Ou melhor, antes de administrar os mistérios Deus, o padre é testemunha do ‘Mistério de Deus’. Justamente, por isso, o padre não administra tão somente os sacramentos, ele os vive. Antes de fazer pastoral é pastor. A unção sacramental o atinge em seu ser e não apenas em seu fazer. Por isso, tudo no padre é sacerdotal, toda sua existência passa a ser permeada pelo ‘Mistério Salvífico de Cristo’, como bem expressa o próprio rito de ordenação sacerdotal: “Conforma tua vida ao Mistério de Cristo”. O padre é o homem do Mistério, na genuína acepção do termo.

Tomado pelo ‘Mistério de Deus’, mas sem deixar de ser humano. São Paulo expressou muito bem essa realidade, quando escreveu à comunidade de Corinto: “Carregamos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7). Apesar das fragilidades comuns a todas as pessoas, o padre é revestido de uma graça especial que o capacita a ser um educador da fé. Homem que leva as pessoas até Deus. É um aproximador. Um paraninfo. Nesse sentido, o padre lembra Moisés, ao pé do monte Sinai, quando fez o povo sair do acampamento para ir ao encontro de Deus (cf. Ex 19, 17). É isso que o povo espera de um padre: não só um homem que o acolhe, que o escuta com gosto, mas também, e, sobretudo, um homem que o ajuda a encontrar Deus, a chegar até ele; à semelhança de João Batista que levou seus discípulos até Cristo.

“Vive o Mistério que é colocado em tuas mãos”. É esta a interpelação que a Igreja dirige ao padre no rito da ordenação, no momento que lhes são entregues o pão e o vinho para o sacrifício eucarístico. Esta frase jamais pode ser esquecida ou negligenciada por nós, sacerdotes. Ela resume a identidade sacerdotal: “Homem do Mistério de Deus”. Aproveito este momento para relembrar um dos grandes ensinamentos da Conferência Episcopal de Puebla, México (1979): “O presbítero é um homem de Deus. Todavia, só lhe é dado ser profeta na medida em que tenha feito a experiência do Deus Vivo. Só esta experiência o fará portador de uma Palavra poderosa para transformar a vida pessoal e social das pessoas”. Homem do Mistério, isto é, ‘testemunha’. Antes de falar e anunciar, experimenta em si próprio o Mistério do Deus Vivo. É esta experiência que deve ser comunicada e compartilhada com o povo.

Homem do Mistério que administra ‘os mistérios de Deus’; que administra ‘as graças de Deus’ em favor de seu povo. E à semelhança de Cristo ensina, santifica e conduz sua comunidade para Deus.

Conduz seu povo para Deus construindo ‘pontes’, vencendo as contendas. O padre é o homem da comunhão, que sabe mediar conflitos e articular as diferenças, a fim de levar as diversas posições à reconciliação. Homem que sabe discernir e incentivar os dons que o Espírito Santo concede a sua comunidade. É o ‘animador de carismas’. É aquele que reconhece (conceder o dom é obra do Espírito Santo), promove e coordena os carismas de forma harmônica, de tal forma que cada fiel participe da comunidade, assumindo sua cidadania eclesial, como pessoa adulta, madura na fé.

Administra os mistérios quando também ensina a Palavra de Deus ao seu povo. Quando acredita na força da Palavra, na ação invisível, mas eficaz da graça no coração humano. Aliás, é a Palavra que convoca as pessoas a se reunirem em comunidade, constituindo a Igreja de Deus. Anunciando a Palavra, os padres fazem a seu modo o que fizeram os apóstolos, na expressão de Santo Agostinho: “Pregaram a Palavra de Deus e geraram Igrejas”.

E santifica o povo pela administração dos sacramentos, de um modo muito especial pela celebração da eucaristia. Na celebração diária da eucaristia, o padre conforma cada vez mais sua vida ao Mistério Salvífico de Cristo. Um antigo pensamento medieval diz o seguinte: “Sacerdote do Senhor, celebra tua Missa como se fosse a primeira, como se fosse a última, como se fosse a única Missa da tua vida”. Celebrar bem a eucaristia é ser bom administrador dos ‘mistérios de Deus’.

Neste primeiro domingo de agosto, de modo especial, reze pelos padres de sua paróquia, assim, como também pelas vocações sacerdotais: “Enviai, Senhor, operários para a vossa messe, pois a messe é grande e os operários são poucos”.

Dom José Roberto Fortes Palau 
Vigário Episcopal
Região Ipiranga