Nem bonecos, nem enfeites (II)

01/11/2016 - 17:15

As imagens não são nem bonecos, nem enfeites. Elas são uma transcrição iconográfica da mensagem evangélica; sinais que têm como referência última Cristo e o mistério da encarnação; oferecem uma memória dos irmãos santos e da Jerusalém Celeste; um auxílio e incentivo na oração; um estímulo à prática das virtudes que conduzem à santidade; uma forma de catequese histórica.

Mas a arte cristã das imagens, assim como quase todas as áreas de atividade humana, sofre com um processo de secularização. Por isso mesmo, em não poucas realidades, as imagens perderam o valor estético, teológico, catequético e histórico, passando, assim, a ser apenas objetos de devoção pessoal, provocando graves rupturas entre Teologia e religiosidade.

Atualmente, vemos muitas imagens expostas em lojas de material religioso que são produzidas em série e que têm baixo custo para a venda. Essas imagens geralmente têm feições delicadas e, na maioria das vezes, traços infantis. São vendidas e compradas para servir de presente em datas especiais, outras vezes servem de souvenir e até como objeto de coleção, seja pelo tamanho ou pela variedade de “personagens”. Qual o problema com esse tipo de imagem? Afinal, elas não são uma expressão da religiosidade das pessoas?

O problema está na estética dessas imagens, ou seja, naquilo que elas deixam de representar. A imagem tem que manter uma ligação com a pessoa historicamente representada, tem que mostrar os sinais e as marcas vividas. Um rosto infantil tenta esconder as dores, as feridas e mostrar apenas a beleza. Essas imagens escondem a verdadeira beleza da realidade e comprometem a percepção da experiência de Deus.

A imagem de Cristo na cruz não pode esconder as chagas, nem seu rosto pode ser representado como o de uma criança. Ele é o servo sofredor, e esse é o mistério da nossa redenção. Da mesma forma, São Francisco, Santa Rita, Santa Terezinha e tantos outros homens e mulheres reconhecidos por sua santidade não podem perder os sinais do seu testemunho cristão.

A veneração das imagens sagradas está incluída entre as principais e distintas formas do culto cristão católico, que é devido ao Cristo Senhor e, por outro título, aos santos. Cultuando os santos nas veneráveis imagens não se cultua algum poder divino, presentes nela, mas antes se vai ao encontro do mistério de Cristo, que continua a operar nos seus membros. A autêntica espiritualidade cristã não rejeita as marcas históricas, em nome da falsa beleza, mas busca inspiração na vida dos santos para fortalecer, no tempo presente, a caminhada dos fiéis.

 

Dom Devair Araújo da Fonseca

Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia e Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação

 

Edição 3125, Jornal O SÃO PAULO, p. 05