‘Não endureçais os vossos corações’

21/09/2017 - 09:45

O salmo 94 é um hino conhecido e é recitado na oração da manhã. Esse hino faz um convite ao louvor de Deus e ressalta alguns dos seus feitos e das suas obras desde a criação, passando pela história do povo de Israel. Ao mesmo tempo que aponta à infidelidade do povo, o hino mostra a grande misericórdia e o amor de Deus, capaz de perdoar a quem corrige os seus atos. Misericórdia e perdão são os caminhos e a forma como Deus age. Mas, exatamente por isso, é preciso questionar por que o povo se fecha e endurece o coração.

Deus é o grande rei, que tem nas mãos as profundezas de todas as coisas, e com isso o salmista indica que o Senhor conhece o nosso coração e as nossas intenções e nada fica oculto ao seu olhar. A intenção não é provocar o medo, mas despertar a consciência para não ofender a Deus que nos trata com amor. Mas, um coração que está endurecido e não tem temor a Deus não respeita nem as Leis de Deus e nem as leis humanas. Quem é indiferente a Deus também se torna indiferente aos filhos de Deus. O roubo, a corrupção, a violência e a exploração são apenas algumas das consequências dessa indiferença.

Corações endurecidos prestam culto a outros deuses e por isso se prostram diante do dinheiro, do poder e da glória: mas, tudo isso passa. Para esses, as coisas valem mais do que as pessoas, o negócio é mais importante e o lucro é o objetivo, ainda que seja fruto da exploração dos pobres. Não é isso que estamos vendo acontecer ao nosso redor, todos os dias? Há quanto tempo isso acontece, e por quanto tempo mais ainda vai acontecer?

É preciso aprender com erros, é preciso discernir sobre os nossos caminhos e sobre as nossas escolhas. O salmista recorda que toda uma geração se fechou, endureceu o seu coração e caminhou pelo deserto, mas não foi abandonada por Deus. Também nós não estamos abandonados e nem fomos esquecidos. Então, o que nos falta? O que é preciso fazer para retomar a direção certa? Quando será devolvida a dignidade que foi roubada aos pobres?

Quando veremos a vida respeitada em todas as suas etapas, da concepção até o seu termino natural? Quando ouvirmos novamente a voz de Deus e quanto o temor do Senhor impregnar todas as nossas atitudes, aí sim começaremos a ver as mudanças. “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz!”, assim rezamos no salmo. Que esse dia esteja perto. Esse é o nosso desejo e a nossa esperança.


Dom Devair Araújo Da Fonseca
Bispo Auxiliar Da Arquidiocese na Região Brasilândia e Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação
Artigo publicado no jornal O SÃO PAULO, em 20/06/2017