Ser católico não é uma escolha fácil

08/03/2017 - 16:15

A ideia de que a fé não tem uma incidência em nossas atitudes, e que o católico não vive a sua vida segundo o evangelho, precisa ser definitivamente desfeita. Ser católico não é uma escolha fácil. O que acontece é que muitos desconhecem as exigências dessa escolha. Alguns dizem que quando mudaram de “igreja” ou de “religião” se encontraram com a verdade. Nesse caso, a questão é perguntar o que esta pessoa “convertida” realmente conhecia e quanto se comprometia com a sua condição de católico.

Temos uma grande história, marcada pelo testemunho de homens e mulheres, de santos e santas de todas as idades, de diferentes nacionalidades, de condições sociais diversas. Eles foram pessoas do povo, membros da nobreza ou do clero, pais e mães de família, trabalhadores ou políticos. Em todas as áreas da atividade humana, onde se desenvolve um trabalho justo e digno, pode ser encontrada uma pessoa que testemunhou a sua fé católica.

Nenhum desses homens ou mulheres se destacou por uma vida cômoda e tranquila, ou por ter achado que não era preciso viver realmente as exigências da fé. Ao contrário, foram pessoas que trouxeram, ao seu tempo, a luz do testemunho. Apenas para ilustrar, podemos citar Thomas More, que foi político, diplomata, advogado, e morreu enfrentando o rei Henrique VIII, defendendo o Matrimônio; Gianna Beretta Molla, a médica que protegeu a vida da filha que devia nascer, mesmo com o sacrifício da própria vida; Amabile Lucia Visintainer, a Madre Paulina, uma pobre imigrante italiana, que consagrou toda a sua vida no serviço aos pobres; e o jovem Guido Vidal França Schäffer, um seminarista e surfista carioca, que está em processo canonização, e que dizia: “Todas as nossas ações devem visar o amor de Deus”. Realmente, ser católico não é fácil, e é no tempo da Quaresma que algumas dificuldades se tornam ainda mais evidentes.

Não é fácil seguir a orientação da Igreja e fazer jejum. Porque o jejuar não é apenas deixar o prato vazio. É preciso sentir a angústia e o sofrimento de tantos irmãos que nunca têm o que comer e nem água para beber. O jejum que agrada a Deus é aquele que nos tira do egoísmo e nos abre para as necessidades dos outros.

Não é fácil rezar como reza a Igreja, porque a oração não é a simples repeti- ção de uma fórmula escrita ou decorada. A oração não é uma barganha, na qual apresentamos ao Senhor as nossas exigências por cura ou por milagres; ela também não é um recurso de palavras sensíveis que tocam os sentimentos, mas não a vida. A oração é um caminho de encontro e de diálogo com Deus, que nos ajuda a olhar sem medo a realidade à nossa volta, que desperta e sustenta a missão e o testemunho de fé.

Não é fácil dar esmolas, como ensina a Igreja. Porque para dar esmola não basta tirar do que nos sobra, e nem esvaziar nossos armários, para depois simplesmente comprar outras coisas, e enchê-los novamente. A esmola é um sinal de despojamento, para podermos caminhar mais livremente. Somente Deus merece tudo de nós e nada pode nos prender. A esmola vence a ganância, o consumismo, a vaidade, promovendo a justiça e a fraternidade.

Os nossos dias não são tempos mais difíceis para alguém ser católico. O que acontece é que alguns querem um caminho mais fácil, um jeito mais suave e “light” para viver a fé. Mas isso não é possível, pois o único jeito de ser católico é seguir Jesus Cristo e assumir todas as exigências decorrentes dessa escolha.

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Brasilândia;
e vigário episcopal para a pastoral da comunicação

Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO - edição 3141 - 8 a 14 de março de 2017