Os bispos e o momento atual da sociedade brasileira

10/05/2017 - 16:15

Entre os dias 26 de abril e 5 de maio deste ano, realizou-se em Aparecida (SP) a 55ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, principal instância da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A reunião contou com a grande maioria dos pastores das Igrejas Particulares do território brasileiro, como também com a presença de vários eméritos. Foram dias de convívio alegre e fraterno, oração e reflexão acerca de diversos assuntos eclesiais e do atual momento da sociedade brasileira.

O tema central proposto para a reunião foi a “iniciação cristã”, uma demonstração do zelo da Igreja com a transmissão da fé e seu processo de iniciação de novos cristãos nas paróquias. Um texto prévio foi enriquecido com as contribuições dos bispos participantes, e será oferecido aos discípulos e discípulas missionários empenhados em atividades afins nas comunidades eclesiais. A CNBB espera que esse instrumento contribua para a Igreja ser de fato “casa da iniciação à vida cristã”.

Entretanto, houve também um esforço dos bispos para oferecer uma palavra de ajuda na compreensão do momento atual, marcado por graves crises e sérios conflitos. Primeiramente, com uma mensagem aos trabalhadores e trabalhadoras homenageados no Dia de São José Operário, 1º de maio. Num breve texto, foi lembrada a profunda relação entre trabalho e dignidade humana e que o trabalhador não pode ser coisificado como mera força laboral, especialmente num contexto de precarização do trabalho e de flexibilização das leis que regem essas relações.

Nesse texto, os bispos tomaram posição diante dos Projetos de Lei das Terceirizações (4302/98), da Reforma Trabalhista (6787/16), bem como da Proposta de Emenda à Constituição acerca da Previdência (287/16), afirmando ser inaceitável que tais decisões sejam tomadas sem amplo diálogo com os atores sociais. E, como estão sendo propostas, trarão impactos que precisam ser avaliados, a exemplo da redução da proteção social com o afastamento do Estado da função de mediar a relação entre capital e trabalho.

Em outra nota, intitulada “O grave momento atual”, apontaram uma causa importante para a preocupante conjuntura, desfavorável à população em geral, sobretudo às minorias e pobres. Lembraram que o princípio norteador da economia é a “primazia ao mercado, em detrimento da pessoa humana, e ao capital em detrimento do trabalho”. Essa orientação enfraquece o Estado e o torna refém do mercado, passo decisivo para se submeter o ser humano aos interesses econômicos, penalizando os mais vulneráveis.

No mesmo escrito, os bispos ainda pensam em uma solução para a preocupante conjuntura atual, pois “não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade”. Os sinais da fraternidade ferida estão em situações como a desigualdade social, o recuo das políticas públicas, o desrespeito a direitos fundamentais, os crescentes conflitos na cidade e no campo, a degradação ambiental, a má gerência do sistema carcerário. E recorrem ao pensamento do Papa Francisco, o qual orienta a buscar na inspiração da “mensagem cristã” uma alternativa “entre a tese neoliberal e a neoestatista”.

Nesse sentido, os bispos exortam para que as necessárias reformas “obedeçam a lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum”. O exercício do diálogo fraterno, sem excluir interlocutores, é o caminho a ser trilhado para a consolidação das estruturas democráticas, com a “construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna”.

Dom Luiz Carlos Dias
Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Belém
Artigo publicado no Jornal O SÃO PAULO - edição 3150 - 10 a 16 de maio de 2017