Papa Francisco continua a pregar a doutrina da Igreja na linha dos seus predecessores

Cardeal Odilo Pedro Scherer, em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO, fala sobre os quatro anos do pontificado do Papa Francisco.
Publicado em: 16/03/2017 - 16:00
Créditos: Daniel Gomes/ Jornal O SÃO PAULO

Participante do conclave em que o Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa, em 13 de março de 2013, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, em entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO, fala sobre os quatro anos do pontificado do Papa Francisco.
Segundo Dom Odilo, mais do que reformar estruturas, Francisco está fazendo as pessoas na Igreja mudarem atitudes e comportamentos. O Arcebispo de São Paulo fala ainda sobre como a comunidade internacional tem reagido aos apelos do Pontífice e sobre os aspectos mais fortes do magistério do 266º papa da história da Igreja Católica.
Dom Odilo lembra ainda que todos os católicos devem ouvir, levar a sério e seguir os ensinamentos do Papa com sincera adesão de coração, reconhecendo que Francisco é o legítimo sucessor de Pedro. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

O SÃO PAULO – O Papa Francisco completa quatro anos de pontificado. Muito se tem dito que ele é o papa das reformas. Poderia nos esclarecer quais são os principais temas dessa reforma e o que ele conseguiu viabilizar a respeito até agora?

Cardeal Odilo Pedro Scherer – Antes de mais nada, parabéns ao Papa Francisco pelo 4º aniversário de seu pontificado! Agora, com relação à pergunta, ele está sim realizando uma reforma no coração da Igreja. Não se trata tanto de mudar estruturas quanto de mudar atitudes e comportamentos, que façam voltar ao essencial da vida e da missão da Igreja. A reforma da Cúria Romana está acontecendo aos poucos; mas o Papa está tratando, mais que tudo, de mudar o próprio espírito da Cúria. Está mudando alguns aspectos da disciplina da Igreja, para maior benefício dos fiéis; mudando o pêndulo das preocupações da Igreja, menos voltadas para dentro e mais para a missão da Igreja no mundo. E está mudando a percepção geral a respeito da Igreja: mais próxima das pessoas, mais servidora e misericordiosa.

Na opinião do senhor, quais os aspectos mais fortes do magistério do Papa Francisco?

O Papa Francisco continua a pregar a doutrina da Igreja, na linha dos seus predecessores, mas com alguns destaques especiais: a pregação da Palavra de Deus com simplicidade; a dimensão missionária da Igreja; a atenção especial à pessoa humana; o aprofundamento da ética relacionada com as questões ambientais; a misericórdia como a marca do agir cristão; o clamor pela justiça nas relações interpessoais, nacionais e internacionais; a atenção aos últimos e aos “descartados” da sociedade; a preocupação em construir pontes em vez de muros; a colegialidade episcopal na condução da Igreja.

Em muitas ocasiões, o Papa chamou a atenção do mundo para os mais frágeis, como os refugiados. Na percepção do senhor, que respostas os líderes mundiais têm dado aos apelos do Papa? Há quem tenha instrumentalizado tais preocupações do Pontífice?

Os apelos do Papa nem sempre recebem a acolhida desejada, não apenas entre os governantes, mas até entre os próprios membros da Igreja. É uma pena. Nisso, porém, não há diferença com o que acontecia com os outros papas: todos sofreram contestações e críticas aos seus ensinamentos e apelos. Mas também houve muitas pessoas e governantes que se orientaram pelas palavras do Papa, como acontece também atualmente. O Papa deve continuar a falar e a testemunhar o Evangelho perante o mundo e a própria Igreja. Isso não depende de índices de aprovação ou rejeição: é a missão recebida de Cristo.
 
Após ter realizado o Sínodo da Família, o Papa convocou para 2018 o Sínodo da Juventude. O que se pretende e o que se espera com esse sínodo?

Francisco, de fato, realizou duas assembleias do Sínodo sobre a família; a primeira, em 2014, já havia sido convocada por Bento XVI, mas foi Francisco que deu a tônica a essa assembleia, bem como à de 2015. A primeira foi extraordinária e a segunda, ordinária. Os frutos dessas assembleias ainda vão aparecer daqui por diante. A assembleia ordinária de 2018 terá como tema a juventude, com um enfoque vocacional, e deverá dar uma atenção especial às temáticas relacionadas com a situação dos jovens no mundo e na Igreja, os rumos da evangelização das novas gerações e a sua participação na vida e na missão da Igreja. No meu entender, o tema envolve uma das questões cruciais da Igreja em nosso tempo: como alcançar a juventude? Como transmitir a fé às novas gerações, para que se sintam parte viva e ativa da Igreja? Sem uma especial atenção à juventude, o futuro da Igreja fica necessariamente comprometido.

Nestes quatro anos, como tem sido a relação do Papa Francisco com os cardeais?

O Papa tem ouvido os cardeais. Muitos deles participam de um ou vários organismos da Cúria Romana, ajudando o Papa em sua missão, como conselheiros e colaboradores. Ele também instituiu o conselho de nove cardeais, que o ajuda a trabalhar sistematicamente sobre as reformas em curso. A escolha de novos cardeais também merece uma observação: ele tem procurado tornar o Colégio Cardinalício menos europeu e mais universal, chamando novos cardeais de países pequenos e de áreas missionárias da Igreja e da “periferia do mundo”.

Nas ocasiões em que o senhor esteve com o Papa, que recomendações ele fez à Igreja no Brasil?

Normalmente, nas conversas particulares, o Papa ouve muito, mas não faz recomendações desse tipo, que não sejam conhecidas pelos seus discursos públicos e documentos. Ele tem muita informação sobre o Brasil e sobre os outros países, e acompanha os principais acontecimentos da Igreja e da vida pública nos vários países do mundo. Ele sempre tem alguma expressão de bom humor e pede muito que rezemos por ele.

Na comemoração do 4º aniversário da eleição do Papa Francisco, qual deveria ser a atitude dos católicos em relação ao sucessor do apóstolo de Pedro?

Devemos ter uma fé sincera na ação do Espírito Santo, que age na Igreja com toda a certeza. A escolha do Papa Francisco teve a assistência do Espírito Santo. Ou não cremos na Igreja Católica? Por isso, além da oração pelo Papa, também é necessário ouvi-lo, levar a sério seus ensinamentos e segui-los com sincera adesão do coração. Preocupa-me a crítica fácil ao Papa movida por grupos que rejeitam os ensinamentos e os chamados do Papa Francisco, e até o reconhecimento de que ele seja o legítimo sucessor de Pedro. Com qual Igreja estamos, se não aderimos ao Papa - não a um “papa ideal” –, que está à frente da nossa Igreja? Isso é grave e merece uma séria reflexão, pois envolve a nossa fé na Igreja e na ação do Espírito Santo na Igreja e por meio dela. Não deixemos de rezar pelo Papa Francisco, como ele mesmo recomenda a todos! E