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29/09/2008

Outubro - Mês das Missões

 

 

 Artigo - "Vida para todos os Povos!"

 Entrevista com Dom Luis Augusto Castro, arcebispo de Tunja, Colômbia

 

 

Vida para todos os Povos !

 

No dia 19 de outubro, penúltimo domingo do Mês Missionário, celebramos o Dia Mundial das Missões com orações, iniciativas e coletas em favor do trabalho de evangelização no mundo. As ofertas desse dia devem ser destinadas integralmente à Missão universal da Igreja e enviadas às Pontifícias Obras Missionárias – POM, por meio das dioceses. É uma oportunidade para mostramos nosso interesse e compromisso com as Missões aqui e além-fronteiras. As iniciativas propostas devem servir de estímulo para uma conversão pastoral e renovação missionária das comunidades cristãs (Cf. DA 370).

 

No Brasil, o tema da Campanha Missionária 2008 é “Vida para todos os Povos!” em sintonia com o tema da Campanha da Fraternidade, “Escolhe, pois, a Vida” (Dt 30, 19). O apelo proposto requer respostas urgentes uma vez que os problemas que ameaçam a vida da humanidade são tantos! Os povos espalhados pelo mundo esperam da comunidade missionária, pelo menos algumas soluções para garantir condições melhores em suas vidas tão fragilizadas, nas mais diversas manifestações e estágios. Conforme bem lembrou dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu, PA, na sua profética intervenção durante o Congresso Americano Missionário – CAM 3 - Comla 8, realizado no mês de agosto, em Quito, “a humanidade pergunta a nós, comunidade missionária, que ‘recebeu a missão de anunciar o Reino de Cristo e de Deus’ (LG 6): o que significa o anúncio deste Reino para os grandes problemas que ameaçam a humanidade? Qual é a contribuição (relevância) da comunidade missionária para a solução desses problemas?... E nós, comunidade missionária, nos perguntamos: quais são esses problemas e qual é a solução que podemos oferecer ao mundo, à humanidade e, sobretudo aos pobres? Esses problemas têm solução?”

 

Faz parte da natureza do cristão possuir um coração universal, inflamado de solidariedade e caridade, marca do discípulo missionário de Jesus Cristo que deu sua vida pela humanidade. Nesse sentido, as preocupações dos outros deveriam ser também as nossas. Ao lançar um olhar para a vida de todos os povos, a Campanha Missionária 2008 quer recuperar a natureza da vocação cristã. Encontramos uma maneira de aprofundar a nossa reflexão e avançar. Pensar no essencial da vida cristã nos leva a pensar também na sobrevivência da própria Igreja: discípula missionária de Jesus. Uma comunidade que se fecha sobre si mesma está destinada a morrer. É por isso que o Documento de Aparecida, desejando renovar a Igreja fala do nosso compromisso com a missão Ad Gentes. “Nossa capacidade de compartilhar nossos dons espirituais, humanos e materiais com outras Igrejas confirmará a autenticidade de nossa nova abertura missionária” (DA 379).

 

Fica claro que a sobrevivência da nossa Igreja depende da sua ação missionária, indo além de suas próprias fronteiras, sejam geográficas, culturais ou pessoais. Somente quando a Igreja peregrina no mundo viver seu mandato missionário revelará a sua verdadeira natureza. “Pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai” (AG 2).

 

Jaime Carlos Patias, diretor da revista Missões, mestre em comunicação.

Subsídios da Campanha Missionária 2008: www.pom.org.br/cm2008

Ver também, revista Missões, N. 08, Outubro de 2008.

 

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Entrevista com Dom Luis Augusto Castro, arcebispo de Tunja, Colômbia

 

Os empurrões do Espírito

 

Estamos preocupados em não perder os bons cristãos, quando o mais importante é ir aos outros e ajudá-los a conhecer Jesus Cristo.

 de Jaime Carlos Patias

 

Durante o 3º Congresso Americano Missionário e 8º Congresso Missionário Latino-Americano realizado entre os dias 12 e 17 de agosto, em Quito, dom Luis Augusto Castro, arcebispo de Tunja, Colômbia, um dos expoentes nas principais conferências do evento, concedeu entrevista exclusiva à revista Missões. O arcebispo, missionário da Consolata, é ex-presidente da Conferência Episcopal da Colômbia e não mede esforços para mediar o diálogo entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Governo.

 

Dom Castro, para onde vai a missão hoje?

É bom retomar um conceito da encíclica Redemptoris Missio, muito importante sobre a missão da Igreja que é tudo o que compreende a atividade evangelizadora. Porém, segundo os destinatários dessa missão existem modalidades específicas que podemos definir em três tipos, sendo a primeira a missão pastoral, que acompanha os cristãos no crescimento da fé. O segundo grupo são os cristãos que se afastaram. Para eles a missão é nova evangelização para recuperar aqueles que esqueceram de Jesus Cristo. A terceira forma de missão é destinada àqueles que ainda não conhecem Jesus Cristo como Deus e Senhor, ou seja, o primeiro anúncio. Trata-se de acender o fogo pela primeira vez. Essa é a missão Ad Gentes da qual fala o CAM 3 – Comla 8. Acontece que hoje, numa família podemos encontrar essas três situações. A separação é mais teórica, porém, nos ajuda a entender a diferença entre essas três dimensões.

 

O Senhor acha que a Igreja local está comprometida com a missão Ad Gentes como prioridade?

As dioceses devem entender que os missionários dos Institutos e Congregações são um apoio para a missão Ad Gentes, mas isso não lhes tira a responsabilidade de lançarem-se além de suas fronteiras. A diocese tem uma área territorial porque deve interessar-se pelas comunidades cristãs desse território. Dentro desses limites, existe de tudo um pouco. Cristãos, não-cristãos, pessoas que abandonaram, que esfriaram sua fé. Cada uma delas tem um desafio missionário dentro de si mesma. Contudo, cada diocese deve saber que, em virtude de ser católica, deve projetar-se universalmente. Por isso há uma missão Ad Gentes que é Ad Intra e outra Ad Extra, isto é, para fora. As duas são importantes. Temos esquecido um pouco da missão para fora e, muitas vezes, nem sequer nos preocupamos com a missão Ad Intra. Estamos preocupados em não perder os bons cristãos, quando o mais importante é ir aos outros e ajudá-los a conhecer Jesus Cristo.

 

Este é o 3º Congresso abrangendo toda a América. Alguma problemática em relação à integração América Latina e América do Norte?

Os países da América do Norte, Estados Unidos e Canadá tiveram um compromisso missionário muito interessante, especialmente com a África e a Ásia (a América do Norte envia 8.193 missionários e recebe 1.645). Porém agora, eles devem responder a um desafio missionário diferente que é o das migrações. Por isso a  América Latina deve colaborar com eles no sentido missionário. Muitos católicos latino-americanos chegam ao Canadá e Estados Unidos e se perdem. Com razão os bispos estão preocupados em proporcionar um acompanhamento aos migrantes, somando esforços para um trabalho integrado no continente. Eu creio que vivemos um despertar missionário nas Américas e tudo isso é possível graças a congressos como esse.

 

O senhor publicou um livro intitulado “Fé Missionária, Fé de Primeira”. Por que esse título?

Escrevi esse livro pensando nos leigos e em colaboração com o Celam por ocasião da Conferência de Aparecida. Procurei utilizar uma linguagem clara e popular para explicar as dificuldades teológicas que geralmente são difíceis para a leitura. Tratei de escrever capítulos breves para facilitar a assimilação e espero que o livro ajude a criar consciência missionária sobre a missão Ad Gentes. É um texto que responde cem perguntas sobre a questão missionária, uma pequena enciclopédia de missiologia.

 

Em que os temas centrais do Congresso: Discipulado, Pentecostes e Evangelização contribuem para intensificar a missão além-fronteiras?

Entendo o discipulado na linha do documento de Aparecida, um discipulado missionário. Tomou-se em consideração o aspecto missionário. Por isso tivemos duas conferências que discorreram sobre o discipulado e a outra sobre o ser missionário. A missão não é algo que brota da natureza humana, mas é ação do Espírito de Deus. Assim como Santa Teresinha desejava ser missionária de norte a sul, e o foi de fato, na oração e sacrifício, todos podemos fazer missão. É como em uma equipe de astronautas. Apenas três chegam à lua, mas por detrás, há uma equipe de apoio com a mesma mentalidade para que a viagem saia bem. Se todos têm uma mentalidade missionária, uns partem, outros ficam,  conforme a vocação de cada um.

 

O senhor fala dos empurrões do Espírito. O que quer dizer com isso?

Eu quis destacar como idéia-chave os empurrões do Espírito para todos os lados. Aparecida usou conceitos muito mais elegantes, mas a idéia é a mesma. O que se espera é que cada um seja dócil aos empurrões que recebe do Espírito.

 

Que avaliação o senhor faz da Conferência de Aparecida um ano depois?

Há poucos dias fiz uma conferência sobre Aparecida e comecei contando uma história de um rapaz que estava se afogando em um lago e sua mãe estava à margem. Lá havia um homem perto, com capacidade para salvá-lo. A mãe gritava para ele: por favor, ajude-o! Mas o homem permanecia sem reação. O filho perdeu as forças e começou a afundar, então o homem levantou-se rapidamente, saltou como uma flecha, agarrou o rapaz e o retirou da água. A mãe perguntou por que havia esperado tanto para agir e o homem respondeu: se eu agisse antes, seu filho teria força e afundaríamos nós dois. Se eu esperasse um pouco mais, ele morreria afogado. Agi no momento preciso. Da mesma forma Aparecida chegou em um momento preciso, quando havia uma sensação na  América Latina de que estávamos afundando. Como um acontecimento do Espírito, Aparecida chega e gera um novo alento evangelizador. Uma nova audácia apostólica. Um novo empurrão missionário. Foi uma resposta exata para uma necessidade vivida pela Igreja na América.

 

Jaime Carlos Patias, imc, é diretor da revista Missões e mestre em Comunicação. Publicado na edição Nº07 – Setembro 2008 - Revista Missões.

 

Os 10 “empurrões” do Espírito Santo de acordo com dom Castro:

01        Para fora: quando o Espírito nos toca, nos empurra para fora das nossas fronteiras.

02        Para todos: não existem mais fronteiras religiosas ou culturais. As sementes do verbo estão espalhadas em todas as culturas e expressões.

03        Para dentro: leva-nos para dentro da Igreja para construirmos a comunhão, unidade, força da missão.

04        Para o fundo: faz-nos entrar em profundidade, vivendo uma espiritualidade missionária que deve estar aberta a todas as espiritualidades, colhendo o novo.

05        Para o lado: faz-nos olhar quem está ao nosso lado, para vencer o “câncer” da exclusão social, vivendo e construindo a solidariedade.

06        Para trás: faz-nos olhar o passado para retomá-lo com coragem, recuperando nossa história, nossas raízes.

07        Para frente: torna-nos pessoas de esperança, olhando para frente sem desanimar.

08        Para baixo: faz-nos olhar a natureza, a criação, as plantas, animais, a mãe terra. Ela merece a nossa atenção e respeito, pois está cheia de dignidade.

09        Para cima: é o convite à santidade, pois o verdadeiro missionário é santo.

10        Para além-fronteiras: é missão não só “do” Continente, mas “desde”o nosso Continente para todas as nações. Só o fogo do Pentecostes pode nos levar a cumprir tudo isso.

 

Publicado na edição Nº 07 – Setembro 2008 - Revista Missões

Acesse: www.revistamissoes.org.br

 

 

 

 

 

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