Fraternidade e segurança pública
Não é preciso pensar muito para compreender por que
a Igreja no Brasil escolheu como tema da Campanha da
Fraternidade deste ano a questão da segurança
pública. Basta acompanhar um pouco os noticiários de
rádio e TV, ou a imprensa escrita. As notícias sobre
atos e situações de violência estão na ordem do dia.
E não é simplesmente por que os meios de comunicação
social colocam demasiada ênfase nas notícias sobre
fatos de violência: esses fatos existem mesmo em
abundância!
É violência contra a pessoa, sua integridade física
e moral, sua dignidade e seus direitos fundamentais,
contra a sua vida... É a violência diária das
situações de injustiça não superadas, e que pesam
sobretudo sobre camadas sociais e pessoas indefesas...
A violência acaba se tornando corriqueira e nem mais
chama a atenção, a não ser que venha acompanhada de
algum detalhe especialmente repugnante. Vai se
ficando indiferente diante da violência, que vai
sendo absorvida como uma componente da cultura. E as
pessoas defendem-se como podem, levantando muros,
colocando alarmes, contratando seguranças, comprando
armas.
Atrás desta busca de autodefesa vai se definindo uma
situação especialmente grave: a violência como um
fato normal e parte do dia a dia; é a aceitação
inconsciente da cultura da violência. Não se confia
no Estado e nas instituições de segurança, sobretudo
diante da fragilidade e ineficiência dessas
instituições para combater a violência, sem impor
violência ainda maior. A segurança pública é um
direito do cidadão e um dever do Estado. Porém, não
só do Estado, mas também dos cidadãos. Evidentemente,
o respeito às leis faz parte desse dever de
cidadania. Mas a lei, por si só, não resolve; há
tanta lei boa que não é observada. É preciso ir à
raiz do problema, que é a perda do valor da pessoa e
a busca da vantagem acima de tudo. Se o ser humano,
como pessoa, não vale mais nada ou só conta enquanto
traz vantagem para alguém, todos os direitos
referidos à pessoa se perdem.
A questão da violência tem um componente importante,
que não pode ser esquecido e que o lema da Campanha
da Fraternidade deste ano evidencia profeticamente:
a paz é fruto da justiça (cf Is 32,17). Não pode
haver paz social e nas relações entre as pessoas sem
a prática da justiça; e assim também nas relações
entre os povos. A injustiça é sempre uma violência
contra os direitos da pessoa ou dos povos; por isso,
a superação das injustiças é condição para que haja
paz verdadeira.
A Igreja, porém, vai ainda além disso e ensina que o
mero cumprimento da justiça ainda não é suficiente
para cultivar a paz. Esta também é fruto do
arrependimento das culpas, do perdão dado e recebido
e da reparação das ofensas. E mais: ela é assegurada
nas atitudes fraternas e solidárias, que vão além da
medida estrita da justiça e já são expressão do
coração que se alarga para amar e acolher o próximo.
Por isso, a proposta da Campanha da Fraternidade é
feita no período da Quaresma e vem unida ao chamado
à penitência e à conversão. É necessário mudar
atitudes e hábitos violentos, como a prepotência e a
soberba nas relações humanas. A cultura da paz
precisa ser difundida e alimentada, sem ceder à
tentação das soluções violentas para os conflitos. A
paz é cultivada no respeito e na benevolência nas
relações humanas; e também no reconhecimento e na
afirmação da dignidade de cada ser humano, desde o
primeiro instante de sua existência até o final de
sua vida. Evidentemente, a paz é também um fato
social e político e requer o empenho de todos para
que se mantenham as condições sociais, políticas e
econômicas de sua afirmação.
A Quaresma, iniciada com a 4ª. feira de cinzas, é o
caminho de preparação à Páscoa, para celebrar a vida
nova que o Cristo ressuscitado nos comunica; neste
itinerário de preparação, somos convidados a rever a
vida, a fazer penitência e a nos convertermos sempre
mais ao caminho de Cristo e do Evangelho.
“Convertei-vos e crede no Evangelho”, eis o anúncio
e a ordem de Cristo, que nos deve orientar e motivar
neste período. Cabe também a reflexão sobre a
violência presente, talvez, na convivência familiar,
nas relações profissionais e de trabalho e no
cultivo do lazer. Não podemos aceitar, indiferentes,
a violência pequena do dia a dia, como se fosse
“normal”. Não somos feitos para a violência, mas
para a paz e para a mútua edificação.
Card. Odilo P. Scherer
Arcebispo de S.Paulo
Artigo publicado em O SÃO PAULO na ed. de 24.02.2009