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Palavra do Papa

A esmola seja evangélica,
escondida e generosa
A Igreja, fundada no Evangelho,
sempre nos propõe,
no tempo da Quaresma, a
oração, o jejum e a
esmola como meios de nos
preparar para uma bela
experiência de Jesus
ressuscitado na Páscoa. Para 2008,
Bento 16, em sua mensagem para a
Quaresma, reflete sobre a prática da
esmola. No trecho dessa mensagem,
que selecionamos para esta
edição de O SÃO
PAULO, o papa explica,
fundado no Evangelho, como
deve ser a prática da
esmola. O Evangelho
ressalta uma
característica típica da
esmola cristã: deve ficar
escondida. "Que a tua mão
esquerda não saiba o que
fez a direita", diz Jesus,
"a fim de que a tua esmola
permaneça em segredo" (Mt 6, 3-4).
E, pouco antes,
tinha dito que não devemos
vangloriar-nos das nossas
boas ações, para não
corrermos o risco de ficar
privados da recompensa
celeste (cf. Mt 6, 1-2). A preocupação
do discípulo é que tudo seja
para a maior glória de Deus. Jesus
admoesta: "Brilhe a vossa luz
diante dos homens
de modo que, vendo as
vossas boas obras,
glorifiquem vosso Pai que
está nos Céus" (Mt 5, 16).
Portanto, tudo deve ser
realizado para glória de
Deus, e não nossa.
Queridos irmãos e irmãs,
que esta consciência
acompanhe cada gesto de
ajuda ao próximo evitando que
se transforme num meio nos pormos
em destaque. Se, ao praticarmos
uma boa ação, não tivermos como
finalidade a glória de Deus e o verdadeiro
bem dos irmãos, mas
visarmos antes uma
compensação de interesse
pessoal ou simplesmente de
louvor, colocamo-nos fora da lógica
evangélica. Na
moderna sociedade da
imagem, é preciso redobrar de
atenção, dado que
essa tentação é freqüente.
A esmola evangélica não é
simples filantropia:
trata-se antes de uma
expressão concreta da caridade,
virtude teologal que exige a conversão
interior ao amor de Deus e
dos irmãos, à
imitação de Jesus Cristo,
que, ao morrer na cruz, se
entregou totalmente por
nós. (...) Convidando-nos
a ver a esmola com um
olhar mais profundo que
transcenda a dimensão meramente
material, a Escritura ensina-nos que
há mais alegria em dar do que
em receber (cf. At
20, 35). Quando agimos com
amor, exprimimos a verdade
do nosso ser: de fato,
fomos criados a fim de
vivermos não para nós
próprios, mas para Deus e
para os irmãos (cf. 2 Cor
5, 15). Todas as vezes que
por amor de Deus
partilhamos os nossos bens
com o próximo necessitado,
experimentamos que a plenitude
de vida provém do
amor e tudo nos retorna
como bênção sob forma de
paz, satisfação interior e
alegria. O Pai celeste
recompensa as nossas
esmolas com a sua alegria.
Mais ainda: São Pedro
cita, entre os frutos
espirituais da esmola, o
perdão dos pecados. "A
caridade" – escreve ele –
"cobre a multidão dos
pecados" (1 Pd 4, 8). Como
se repete com freqüência
na liturgia quaresmal,
Deus oferece-nos, a
nós pecadores, a possibilidade de
sermos perdoados. O fato de
partilhar com os
pobres o que possuímos
predispõe-nos para
recebermos tal dom.
A esmola educa para a generosidade do
amor. São José Bento
Cottolengo costumava recomendar:
"Nunca conteis as
moedas que dais, porque eu
sempre digo: se ao dar a
esmola, a mão esquerda não
há de saber o que faz a
direita, também a direita
não deve saber ela mesma o
que faz" ("Detti e pensieri", Edilibri,
nº 201). A esse
propósito, é muito
significativo o episódio evangélico
da viúva que,
da sua pobreza, lança no
tesouro do templo "tudo o que
tinha para viver" (Mc 12, 44). A sua
pequena e insignificante moeda
tornou-se um símbolo eloqüente:
essa viúva dá a Deus não o
supérfluo, não
tanto o que tem como sobretudo
aquilo que é;
entrega-se totalmente a si
mesma. Esse episódio
comovedor está inserido na
descrição dos dias que
precedem imediatamente a paixão
e morte de Jesus, o qual, como observa
São Paulo, fez-se pobre
para nos enriquecer
pela sua pobreza (cf. 2
Cor 8, 9); entregou-se
totalmente por nós. A
Quaresma, nomeadamente
através da prática da
esmola, impele-nos a
seguir o seu exemplo. Na
sua escola, podemos
aprender a fazer da nossa
vida um dom total;
imitando-o, conseguimos
tornar-nos disponíveis
para dar não tanto algo do
que possuímos, mas
darmo-nos a nós próprios.
Não se resume porventura
todo o Evangelho no único
mandamento da caridade? A
prática quaresmal
da esmola torna-se,
portanto, um meio para
aprofundar a nossa vocação
cristã. Quando se oferece
gratuitamente a si mesmo,
o cristão testemunha que não é a
riqueza material que
dita as leis da
existência, mas o amor. Desse
modo, o que dá valor à
esmola é o amor,
que inspira formas diversas de
doação, segundo as
possibilidades e as
condições de cada um.
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