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Artigos e Pronunciamentos de Dom Odilo Scherer |
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03/06/2010
Carta aos Sacerdotes - Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer Arcebispo de São Paulo
São Paulo, 03.05.2010 A todos os Padres que vivem na Arquidiocese de São Paulo
Estimados Padres,
Hoje celebramos a Solenidade litúrgica do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, que nos reporta à instituição da Eucaristia e do sacerdócio. Nosso sacerdócio está ligado intimamente à Eucaristia, porque este “augusto Mistério”, mais do que um rito celebrativo é, por excelência, o Sacramento de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Igreja. E o sacerdócio está em função de Cristo e de sua Igreja. Quando celebramos a Eucaristia, ou quando a adoramos, manifesta-se a realidade essencial da própria Igreja: ela é a comunidade dos discípulos congregada por Jesus, reunida em torno dele, alimentada e conduzida por Ele.
É isso mesmo que aparece na celebração eucarística: na pessoa do sacerdote que preside, é Cristo mesmo quem preside, fala aos seus, adora e eleva louvores ao Pai, junto com aqueles que se unem a Ele, entrega-se como “pão descido do céu para a vida do mundo”, perdoa, conforta e envia novamente em missão. Celebrando e vivendo bem a Eucaristia, entendemos melhor a natureza íntima da Igreja, como realidade de “comunhão” dos fiéis unidos no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A celebração de Corpus Christi nos lembra a centralidade da Eucaristia na vida do sacerdote e da comunidade cristã, onde tudo leva para a Eucaristia e, dela, tudo toma a sua força. Por isso, é tão importante que o povo seja estimulado a participar todos os domingos da celebração da Eucaristia. É o encontro semanal com Deus e com a comunidade de fé, à qual pertencem os batizados. No Congresso Eucarístico de Brasília, Dom Cláudio Hummes transmitiu esta recomendação especial do Papa ao povo brasileiro: “diga ao povo que todos vão à Missa aos domingos!” Quando bem motivadas por nós, as pessoas não deixarão de responder ao convite para o encontro semanal com Deus na celebração da Eucaristia! Não deixarão de se alimentar com o Pão descido do céu para a vida do mundo”. E, onde não é possível ter a celebração eucarística, seja feita a celebração da Palavra de Deus com a distribuição da Sagrada Comunhão. Insistir na participação da Missa dominical é parte importante de nossa catequese e educação do povo na fé.
A solenidade de Corpus Christi lembra-nos também a importância da adoração eucarística, reiteradamente recomendada pelo Magistério da Igreja. Nossa fé católica nos diz que a Eucaristia perdura também após a celebração da Missa; as sagradas espécies, que conservamos no sacrário, continuam sendo Sacramento daquilo que foi celebrado e de Jesus Cristo, que permanece verdadeiramente entre nós, na Eucaristia, e pode ser levado também aos doentes, fora da Missa. Por isso, conservamo-la sempre com respeito e dignidade no tabernáculo. A adoração eucarística, fora da Missa, é como um prolongamento da Missa. O papa João Paulo II ensinou que a adoração eucarística é a principal das devoções cristãs, pois nela se cultiva o discipulado, a intimidade e a amizade com o próprio Jesus Cristo, nosso Mestre e Salvador. Por isso, o povo deve ser incentivado a fazer a adoração eucarística, para “estar na companhia” do Mestre e passar algum tempo com Ele. E, naturalmente, seja parte essencial também da espiritualidade sacerdotal.
Quero aproveitar esta “ocasião eucarística” para fazer pequenas observações a respeito do bom trato da Eucaristia, que recomendo a todos os padres. O sacerdote que preside a celebração da Missa também deve distribuir, pessoalmente, a Comunhão ao povo, salvo impedimento justificado, mesmo tendo muitos outros auxiliares que também o fazem. A píxide, ou cibório com as hóstias consagradas não deve ser entregue a algum coroinha, para que a leve ao altar ou ao sacrário, na capela do Santíssimo; isso não é função dos coroinhas, mesmo sendo adultos, mas tão somente do sacerdote, do diácono, do acólito instituído e do ministro extraordinário da Sagrada Comunhão. Há o risco de banalização da Eucaristia. Por outro lado, o povo tem o direito de comungar de diversas formas: recebendo a Comunhão na mão, ou diretamente sobre a língua; de pé, ou de joelhos. Ninguém seja reprimido, ou constrangido, quanto a isso. Estejamos atentos para que a hóstia consagrada seja consumida ali mesmo, diante do padre ou do ministro, para evitar fatos de profanação da Eucaristia.
Estimados padres, ao chegar o encerramento do Ano Sacerdotal, retomemos a motivação que esteve no início deste ano especial: “fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”. Seremos tanto melhores sacerdotes, quanto mais formos unidos a Cristo, fiéis a Ele, e nos espelharmos nele. O sacerdócio não nos pertence, mas somos servidores do único Grande Sacerdote: o Filho de Deus, que se fez homem, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Seremos bons sacerdotes se formos íntimos dele, amigos e verdadeiros discípulos dele. O Cura de Ars bem lembrava que o sacerdócio é um dom do coração de Cristo à humanidade. Por isso, ressoa forte também em nosso coração a recomendação feita por S.Paulo aos Filipenses: “tende em vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Se isso vale para todos os cristãos, tanto mais vale para os amigos que Ele escolheu a dedo: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi!”.
Como S.Paulo recomendou a Timóteo, seu jovem colaborador, agora o faço também a cada um de vocês, meus irmãos, meus “filhos” na ordem da fé e do sacerdócio: “exorto-os a reavivar o dom de Deus que receberam” pela imposição das mãos do bispo (cf 2Tm 1,6). Onde reavivar o dom de Deus, senão na própria fonte do dom? Este precisa ser realimentado cotidianamente na oração e na comunhão pessoal com Deus e com Cristo, na força do Espírito Santo. Aos padres, a Igreja recomenda a celebração diária da Eucaristia; isso mesmo, diária. Com muito, ou com pouco povo; com, ou sem intenção encomendada. Celebramos sempre pela Igreja toda, com a Igreja e em nome dela. A falta da celebração da Eucaristia só pode ter como conseqüência a crise de identificação com o sacerdócio, como a Igreja Católica o entende. A Eucaristia edifica a Igreja, pois é Cristo quem está em ação na Eucaristia, por meio do Espírito Santo.
Não deixe o padre de buscar regularmente o abraço do Pai misericordioso através do Sacramento da Confissão. Mesmo sendo ministros do perdão de Deus para os irmãos, somos nós os primeiros necessitados do mesmo perdão. Além do mais, o serviço prestado aos fiéis na administração do Sacramento da Confissão é excelso serviço sacerdotal e imensa caridade pastoral. Por sua vez, a caridade pastoral, exercida das mais variada formas, é fonte de realimentação do dom que Deus nos fez. A visita e o consolo dos doentes, o conforto solidário aos enlutados, a atenção carinhosa (pessoal!) aos pobres, a participação das alegrias e angústias do povo, o cansaço no final do dia pelo tempo e as energias gastas em ouvir o povo e estar próximo dele, tudo isso, feito com a caridade de Cristo, bom Pastor, dilata o coração sacerdotal e lhe dá energias sempre renovadas. A vivência generosa, honesta e alegre do celibato é expressão dessa mesma caridade pastoral e, ao mesmo tempo, fonte de fecundidade espiritual no exercício do sacerdócio.
Alimento que não deve faltar ao padre é a constante escuta e acolhida da Palavra de Deus. Somos nós, anunciadores da Palavra, os seus primeiros destinatários; antes de sermos anunciadores, precisamos ser ouvintes da Palavra da Salvação. A Liturgia das Horas, a leitura orante da Palavra de Deus, o amor apaixonado pela Palavra da Vida são alimento indispensável para a espiritualidade sacerdotal. Preparar bem a homilia e falar ao povo com amor e verdadeiro afeto pela Palavra Santa edifica a nós e a comunidade eclesial. Nisso também se traduz o nosso dever de formadores do povo de Deus na fé e na moral cristã, não conforme nossos gostos e opiniões, mas na fidelidade ao Magistério da Igreja. É verdade que o povo precisa de testemunhas, mais que de mestres. Nós, porém, temos o dever de ser mestres da fé, sem deixar de ser testemunhas.
Permito-me recomendar mais uma fonte de realimentação do dom de Deus, que nos foi dado pela imposição das mãos dos sucessores dos Apóstolos e a invocação do Espírito Santo sobre nós: a fraternidade presbiteral e a comunhão com o bispo. Sim, na dimensão da fé, as coisas não podem ser diversamente e um padre que viva isolado do presbitério e sem comunhão com o bispo é incompreensível. Não somos profissionais “autônomos” de ritos sagrados, mas formamos um corpo presbiteral, que tem sua razão de ser em Jesus Cristo no seu Corpo, a Igreja. Por isso, cada padre é um irmão meu no sacerdócio e está unido comigo por laços espirituais e teologais muito profundos. A comunhão com o bispo é expressão da comunhão com a Igreja toda e sinal de autenticidade do serviço sacerdotal. Por isso, recomendo muito o cultivo de verdadeiras e profundas amizades com irmãos sacerdotes; são eles que, finalmente, são capazes de compreender a fundo e de ajudar a um outro sacerdote.
A mística presbiteral ajudará também a “carregar os fardos, uns dos outros, como convém em Cristo Jesus”. Há padres doando a vida em encargos mais leves e outros, em missões mais pesadas; alguns, em “paróquias boas” e outros, nas periferias pobres e lugares de grande carência. Há belos exemplos de ajuda recíproca e isso deveria aumentar, pois servimos a mesma Igreja de Cristo e ninguém deveria estar apegado aos primeiros lugares, nem procurar garantias de vantagens pessoais. Isso estaria na lógica do mundo, mas seria contrário à recomendação e ao exemplo que o Mestre nos deu. No mesmo espírito de partilha e abertura às necessidades do próximo e das comunidades mais pobres também deve ser formado o nosso povo. Somos uma única Igreja, um único Corpo de Cristo.
Meus muito estimados padres, rezo por vocês todos os dias e sei que vocês também rezam por mim, pelos bispos auxiliares e nossos queridos arcebispos eméritos, Dom Paulo e Dom Cláudio. Deus recompense vocês e lhes dê muita alegria na sua consagração sacerdotal. As tribulações que nos afligem a cada passo não devem tirar nossa paz, nem levar-nos a desanimar, conscientes de que a cruz é sinal de autenticidade dos discípulos e amigos de Cristo. O povo tem amor pelos sacerdotes e tanto mais os amará, quanto mais vir neles autênticos ministros de Jesus Cristo e sacerdotes segundo o coração de Deus.
Na próxima semana estarei em Roma, participando de uma reunião do Conselho do Sínodo dos Bispos; em seguida, participarei também do Congresso Sacerdotal (dias 9 e 10/06) e do encerramento do Ano Sacerdotal, na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (dia 11/06). Vários padres da Arquidiocese também estarão lá. Tenho informações de que mais de seis mil padres estarão participando do encerramento e estarão na missa com o Papa Bento XVI. Lembrarei de todos vocês na concelebração e pedirei uma renovada Bênção Apostólica do Papa para todos. Saudação e forte abraço a todos! Deus os abençoe e proteja!
Cardeal Dom Odilo P. Scherer Arcebispo de São Paulo
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