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10º Plano de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo
Discípulos-missionários na cidade de São Paulo

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APRESENTAÇÃO

 

OBJETIVO GERAL DO 10° PLANO DE PASTORAL

 I. O MARCO DA REALIDADE (Ver)

1. Os impulsos missionários de Aparecida e CNBB

2. A Igreja em São Paulo

2.1. Uma história de fé, missão e solidariedade

2.2. Testemunhas de Deus na cidade

2.2.1. Santos e beatificados que viveram nesta cidade

2.2.2. O Apóstolo Paulo, Patrono da Arquidiocese

2.2.3. Centenário da Arquidiocese: lição de fé e missão

            3. O campo da missão e seus desafios

3.1. A cidade com sua dinâmica

3.2. A cultura com suas expressões urbanas

3.3. As dimensões política, econômica e social

3.4. A diversidade de credos e expressões de fé

 

II. MARCO TEOLÓGICO-PASTORAL (Julgar) 

1. Jesus Cristo, Sacerdote, Profeta e Pastor

1.1 Jesus Cristo, o Santificador da humanidade

1.2. Jesus Cristo, Palavra do Pai para a vida do mundo

1.3. Jesus Cristo, o Pastor bom

 2. A Igreja participa da missão de Cristo

2.1. Povo reunido na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (DAp 155-163)

2.2. Povo identificado com Cristo (DAp 136-142)

2.3. Povo animado e assistido pelo Espírito Santo (DAp 149-153)

2.4. Povo chamado a viver a santidade (DAp 129-142; 505)

2.5. Povo enviado a anunciar o Evangelho (DAp 143-148)

2.6. Povo que caminha a serviço da vida, da justiça e da esperança (GS)

2.7. Povo chamado a ser sujeito de transformação social (DAp 394, 397; Puebla)

            3. Missão permanente e conversão pastoral

3.1. O encontro pessoal com Cristo, fonte de missão e conversão pastoral

3.2. Compromisso com uma pastoral de conjunto, em comunhão e participação (DAp 368-369; 371)

3.3. Renovação das estruturas eclesiais, a serviço da missão (DAp 173; 365)

3.4. Plano de pastoral, resposta missionária aos apelos de Deus no cotidiano (DAp 365-377)

3.5. De uma pastoral de manutenção para uma pastoral missionária (DAp 370)

3.6. Utilização das novas tecnologias e linguagens (DAp 484-490)

3.7. Compromisso com o saneamento básico e a preservação da natureza (DAp 470-475)

4. Dimensões da missão dos discípulos (DGAE)

4.1. Serviço (pessoa, comunidade, sociedade)

4.2. Anúncio (pessoa, comunidade, sociedade)

4.3. Diálogo (pessoa, comunidade, sociedade)

4.4. Testemunho de comunhão (pessoa, comunidade, sociedade)

 

III. DISCÍPULOS EM MISSÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO (Agir)

1. A missão dos discípulos e discípulas segundo o tríplice múnus de Jesus Cristo

1.1. Celebrar a vida na comunidade e na cidade (missão sacerdotal)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

1.2. Anunciar a Palavra de Deus e formar discípulos (missão profética)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

1.3. Servir pela prática da caridade (missão pastoral)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

2. Comunidades de discípulos em missão, como sujeitos da ação evangelizadora

2.1. A Arquidiocese, lugar privilegiado de comunhão e participação

2.2. Regiões

2.3. Setores

2.4. Paróquia, comunidade de comunidades

2.4.1. Paróquias em formação

2.4.2. Comunidades Eclesiais de Base

2.4.3. Novas comunidades

2.5. Organismos co-responsáveis pela missão

2.5.1. Organismos de reflexão e ação pastoral paroquial – CPP

2.5.2. Organismo de sustentação à pastoral – Conselhos de Assuntos Econômicos

3. Discípulos com vocações específicas

3.1. Vocações e ministérios

3.2. Ministros ordenados

3.3. Consagrados e consagradas

3.3.1. Comunidades de religiosos e religiosas

3.3.2. Institutos missionários

3.3.3. Institutos Seculares

3.3.4. Leigas consagradas

3.4. Família, discipulado e compromisso missionário

3.4.1. Famílias em situação especial

3.5. Leigos, discípulos em missão

3.5.1. Comunidades em ambientes profissionais

3.6. Comunidades de situação ou de passagem, que aspiram a uma situação mais digna

4. Iniciação cristã e formação permanente para a missão

4.1. Lugares do encontro com Cristo

4.2. Espaços de formação

4.3. Formação específica

5. Missão ad gentes: compromisso missionário de todos os discípulos de Jesus Cristo

 

SIGLAS

 

IV. ANEXOS

1. Considerações sobre planejamento e missão da Igreja

2. O Novo Plano de Pastoral

3. Pressupostos para uma pastoral de conjunto: comunhão e participação

4. Alguns elementos do método ver, julgar e agir

4.1. Conhecer o contexto da missão

4.2. Observar  as referências teológico-pastorais

4.3. Transformar a realidade

4.4. Avaliar, para melhorar

 

NOTAS

 

                 


OBJETIVO GERAL DO 10° PLANO DE PASTORAL[1]

Discípulos-missionários na cidade de São Paulo

 

I. O MARCO DA REALIDADE (Ver)

 

1. Os impulsos missionários de Aparecida e CNBB

A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (Conferência de Aparecida) e as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010 (DGAE) voltam a extrair da experiência do encontro com o Senhor Ressuscitado as razões, motivações e impulsos para a ação evangelizadora da Igreja.

Esses documentos vêm proclamar que somos enviados como testemunhas da grande alegria e da vida nova que nascem do encontro com Jesus. Nem mesmo as adversidades que invadem a cidade e nossas vidas podem arrancar de nós essa alegria. Ela é o antídoto que pode nos proteger contra o mal-estar gerado pela violência, a corrupção, a falta de recursos e outros males que afetam a vida.

Nesse espírito, a Arquidiocese de São Paulo convoca todos os seus filhos e filhas para viverem como discípulos-missionários no cotidiano da cidade. Cada um, conforme o dom que recebeu, com a capacidade que Deus lhe concedeu (cf. 1Pd 4,10-11), é chamado a evangelizar.

“Comunidade missionária” (DGAE 9), a Igreja em São Paulo não se cansa de animar a todos, “como pessoas dignas do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27), para responderem a essa vocação, pois “a missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DGAE 7). A Arquidiocese confessa com alegria sua fé em Cristo Ressuscitado e proclama, como Pedro: - “Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). A fé no “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), é o caminho para o Pai, no Espírito Santo.

O grande impulso para a missão é a alegria do encontro com Jesus: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo Ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo e a história” (DAp 18).

 

2. A Igreja em São Paulo

Interpelados pelo Espírito, que nos reúne em comunhão, é que nos dirigimos aos diferentes espaços da cidade de São Paulo, às diferentes etnias que nela residem, com o propósito de comunicar que Deus habita em nossa cidade: “Eis que estou convosco todos os dias” (Mt 28,20).

Isso quer dizer que este momento é um tempo de graça, pois cabe a nós revelar e testemunhar essa presença de Deus. As transformações da cidade não são motivos para desânimo. São desafios que podem nos ajudar, com a graça de Deus, a discernir os sinais dos tempos, a compreender melhor o Evangelho e a tradição eclesial (cf. DGAE 12).

Contemplamos a história da Igreja na história da cidade de São Paulo, desde os primeiros missionários que aqui chegaram, viveram e testemunharam o amor a Jesus Cristo, à sua Palavra e à Igreja. Junto à população nativa e aos imigrantes, eles souberam revelar a misericórdia de Deus. Apesar dos inevitáveis limites, com eles aprendemos a ser discípulos-missionários, a reconhecer os valores da fé, da ética e da solidariedade, que repercutiram na formação da cidade.

A Igreja em São Paulo brotou e cresceu de uma raiz missionária, tem uma história de discipulado e missão. Uma história que continua hoje, com novo impulso e vigor, à luz das Conclusões de Aparecida, das Diretrizes Gerais e deste Plano de Pastoral.

A fé nos ensina que Deus vive em meio às alegrias e dores, às esperanças e decepções dos cidadãos. Como moradores desta cidade e membros desta Igreja, somos convocados a anunciar a presença de Deus e a testemunhar seu projeto para a cidade, um projeto que “já está se realizando em Jesus Cristo” (DAp 515).

 

2.1. Uma história de fé, missão e solidariedade

Desde seu primeiro núcleo, reunido pela fé em torno do Colégio de Piratininga, a cidade de São Paulo se consolidou e se expandiu numa história rica em práticas de solidariedade, iluminadas pela evangelização. Essas ações influenciaram a construção da civilização urbana.

São Paulo é espaço de liberdade e de oportunidades, mesmo com seus desafios. Nela, podemos conhecer mais pessoas, interagir e conviver melhor, estabelecer vínculos de fraternidade e de solidariedade. As sombras que muitas vezes nos assustam, a violência, a pobreza, o individualismo, a exclusão social, também nos impulsionam a buscar e a contemplar a presença do Deus da vida na cidade. Para testemunhar essa presença e transformar o dia-a-dia, precisamos enfrentar as provocações do mundo urbano, do mercado, da tecnologia e da ciência, quando negam os verdadeiros valores humanos e evangélicos.

São Paulo possui reservas de fé e solidariedade para se tornar espaço de realização e de bem-estar para todos. Apesar das limitações que muitas vezes obscurecem seu dia-a-dia, nela, os “rostos sofredores” das pessoas que vivem nas ruas, dos migrantes, enfermos, dependentes químicos e detidos em prisões, entre outros (cf. DAp 407-430), podem encontrar o conforto e o apoio das comunidades eclesiais. Em São Paulo, construímos e experimentamos vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nela, cada um de nós “é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele” (DAp  514).

Que São Paulo é espaço da vida e paz pode-se constatar na multidão de trabalhadores que cuidam do seu dia-a-dia, na ação dos bombeiros, do pessoal da limpeza, do transporte, da saúde, da educação, da segurança, das pastorais, das comunidades eclesiais de base, das organizações, dos movimentos. Em São Paulo, a dignidade das crianças, adolescentes e jovens, dos afrodescendentes, desempregados, dos idosos sem autonomia, das famílias e da mulher pode ser reconhecida. A violência pode diminuir, por meio de ações educacionais e pastorais, de políticas públicas e de segurança.

A história da cidade é rica em modelos que apontam o caminho do discipulado e da missão. Catequistas, padres, religiosos, consagrados, bispos, enfim, muitos sujeitos da evangelização, assopram a brasa da fé, da caridade e da esperança, da paixão por Jesus Cristo e seu Reino. Nessa caminhada, muitos se dedicaram e se dedicam às pastorais sociais, como os apóstolos leigos que atuam no mundo do trabalho, da política, da comunicação e da educação.

A Igreja em São Paulo está a serviço da construção da Nova Jerusalém, “da realização dessa Cidade Santa, mediante a proclamação e a vivência da Palavra, a celebração da liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos mais pobres e aos que mais sofrem” (DAp  516).

 

2.2. Testemunhas de Deus na cidade

A metrópole nos desafia a descobrir como anunciar o Evangelho de modo dinâmico e vivo, não só para os batizados, mas a todos os que buscam, na transcendência, o sentido da vida.

 

2.2.1. Santos e beatificados que viveram nesta cidade

A Arquidiocese tem em sua história uma multidão de testemunhas da santidade para a qual todos nós somos chamados. Se perguntarmos em cada comunidade, logo encontraremos uma multidão daqueles que identificaram e identificam suas vidas com a vida de Jesus. De certo modo, devemos a eles a nossa fé. E temos a responsabilidade de seguir seus passos no caminho de Jesus. Dessa multidão, a Igreja já reconheceu oficialmente como modelos de santidade os beatos padres Anchieta e Mariano, e os santos Paulina e Frei Galvão. Junto aos padroeiros das nossas comunidades, eles nos animam a seguir seu exemplo de discípulos-missionários de Jesus Cristo.

 

a) Beato Padre José de Anchieta[2]

Nas pegadas de Anchieta, descobrimos como ser discípulos-missionários, catequistas, educadores e mensageiros da paz, inteiramente dedicados a Cristo e aos irmãos. Anchieta perseverou na missão evangelizadora, apesar dos sérios problemas de doenças nos ossos, que sempre o fizeram sofrer, ainda mais quando devia empreender longas caminhadas missionárias.

Criativo e empolgado pela missão, usava linguagem simples, teatro e poesia na evangelização e na catequese, porque assim era mais fácil orientar as pessoas. Anchieta inspirava-se no Evangelho e na tradição da Igreja, para fazer sua ação missionária num contexto de múltiplas práticas de violência. Ele soube enfrentar os desafios de sua época sem negar o amor e o testemunho de Jesus Cristo.

 

b) Beato Padre Mariano de La Mata Aparício[3]

Do Beato Mariano, aprendemos que o discípulo-missionário é chamado a ser amável, atencioso, caloroso e acolhedor, em todas as circunstâncias. Ele contagiava com o conforto de sua presença amiga. Era a alegria das famílias, crianças e jovens. Às pessoas que tiveram a graça de encontrá-lo testemunhava a alegria e a esperança dos verdadeiros discípulos-missionários.

Homem de fé, oração, intenso amor à Eucaristia e devoção à Senhora da Consolação, era de caráter reto, irrepreensível e conciliador, disponível para atender, especialmente os mais humildes, para administrar a Eucaristia e ouvir as pessoas em confissão. Dedicava grande cuidado aos pobres. Aos doentes, não deixava faltar o sacramento da Unção dos Enfermos e o conforto de sua presença e apoio espiritual.

 

c) Santo Antônio de Santana Galvão[4]

No testemunho de Frei Galvão, descobrimos que o fazer cotidiano não nos afasta de Deus, ao contrário, nos aproxima dele, se tivermos uma vida de oração e de meditação da Palavra de Deus. Com Frei Galvão, aprendemos a dedicação ao trabalho, à oração, ao sacramento da Penitência, e a devoção filial à Mãe de Jesus.

A intimidade com Jesus Cristo o impulsionava a ir ao encontro das pessoas até os pontos mais distantes da cidade, para orientar, anunciar, consolar e administrar os sacramentos, especialmente da Penitência. Sua marca missionária fundava-se na prática da caridade ao próximo, pela atenção aos pobres e aos doentes que sempre o procuravam.

A Palavra ilumina a vida, e a vida ilumina a Palavra. O santo utilizava os acontecimentos do momento para evangelizar, como, por exemplo, uma mulher que dá à luz, um rapaz com cólica renal, a construção civil, as “pílulas de papel”...

 

c) Santa Madre Paulina[5]

De Madre Paulina, aprendemos o entusiasmo pela evangelização. Dizia ela: - “Ide adiante! Que Jesus seja conhecido, amado e adorado por todos e em todo o mundo.” Seu lema era “sensibilidade para perceber e disponibilidade para servir, especialmente aos irmãos mais necessitados”. Durante a vida, expressou sua experiência de Deus no serviço aos pobres e enfermos, trabalhou em hospitais, cuidou de todos os tipos de doentes.

Madre Paulina nos desperta para a necessidade de proteger e defender a vida ameaçada, como sinal de esperança para a sociedade. A construção do Reino de Deus se faz na fidelidade ao projeto divino, em comunhão com a Igreja e na sensibilidade para ver e atender os clamores do povo sofrido.

Para a cidade de São Paulo, Santa Madre Paulina aparece como um modelo de mulher e da voz das mulheres, numa realidade em que a questão de gênero é crucial ao processo de evangelização.

 

2.2.2. O Apóstolo Paulo, Patrono da Arquidiocese

A Arquidiocese encontra em seu Padroeiro, celebrado no dia 25 de janeiro, inspiração para assumir com renovado ardor a missão de anunciar Jesus Cristo. São Paulo se deixou cativar por Jesus e se entregou intensamente ao anúncio do Evangelho. Ele nos contagia com sua prática evangelizadora e missionária.

Com São Paulo, aprendemos que “a fé vem da pregação, e a pregação é pela Palavra de Cristo”. (Rm 10,17).  O Apóstolo entendeu que o Senhor veio para todos, que todas as pessoas têm o direito de conhecer Jesus Cristo, pois “Cristo é tudo em todos” (Cl 3,11). Pelo trabalho missionário de Paulo, “a Palavra de Deus cresceu e se confirmou poderosamente” (At 19,20), até abraçar o espaço urbano: “No sábado seguinte, quase toda a cidade reuniu-se para ouvir a Palavra de Deus” (At 13,44).

O impulso de Paulo, “Ai de mim se não pregar o Evangelho!” (1Cor 9,16), estimula a Arquidiocese a enfrentar os desafios da missão na cidade, com destemor e responsabilidade. O discípulo-missionário é um caminhante, que vai ao encontro dos que estão “distantes” ouafastados” da comunidade de fé.

Paulo foi criativo e cuidadoso, utilizou todos os meios de sua época na dinâmica de evangelizar. Pastoral na cidade não significa um conjunto de reuniões, mas ações animadas pela Palavra de Deus. Como Paulo, temos hoje que escutar o que o Espírito diz à Igreja e ser inventivos no anúncio e na construção do Reino.

Sem  o espírito e a ação missionária  que nascem do encontro com o Senhor, a pregação se torna vazia  e o empenho missionário cansativo. Esse encontro se realiza na Palavra de Deus, na oração, na liturgia, na caridade, especialmente aos mais pobres e doentes.

 

“O Apóstolo São Paulo é um exemplo muito inspirador para todos nós. Como habitantes da cidade de São Paulo e membros desta Igreja paulistana, nós precisamos conhecer melhor São Paulo. Discípulo dedicado e missionário ardoroso de Jesus Cristo, São Paulo poderá inspirar muito nossa Igreja no cumprimento de sua missão nesta cidade que lhe é dedicada. Temos muito a aprender de seu encontro pessoal com Jesus Cristo, sua fé inabalável e seu amor a Jesus Cristo, seu zelo e atitude missionária e seu ardor em levar a todos o nome de Jesus Cristo: - ‘Sei em quem acreditei!’ (2Timóteo 1,12.) A Igreja, através da Conferência de Aparecida, nos incentiva a sermos, de maneira renovada, discípulos e missionários de Jesus Cristo no nosso tempo. Paulo, evangelizador vigoroso e apaixonado por Jesus Cristo, inspirou a muitos no passado e pode inspirar-nos, também hoje.” (D. Odilo P. Scherer.)

 

2.2.3. Centenário da Arquidiocese: lição de fé e missão

Plantada em meados do século XVI, no planalto de Piratininga, em torno de uma missão dos padres jesuítas, a Igreja em São Paulo foi elevada a diocese por Bento XIV, no dia 6 de dezembro de 1745. Em 7 de junho de 1908, foi elevada à condição de Arquidiocese e Sede Metropolitana, pelo Papa São Pio X.

O centenário da Arquidiocese foi uma ocasião favorável para recordar os sacerdotes que serviram, animaram e conduziram o povo na fé, esperança e caridade; os missionários que, desde o início da fundação de São Paulo, doaram sua vida ao anúncio do Evangelho à cidade; todas as pessoas que se dedicaram às comunidades, que atenderam aos doentes e pobres e realizaram um sem-número de iniciativas culturais, de caridade, solidariedade social e promoção da dignidade humana.

Em seu primeiro centenário de existência, a Arquidiocese foi servida por sete arcebispos: D. Duarte Leopoldo e Silva (1907-1938); D. José Gaspar D’Afonseca e Silva (1939-1943); os Cardeais D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (1944-1964), D. Agnelo Rossi (1964-1970), D. Paulo Evaristo Arns (1970-1998) e D. Cláudio Hummes (1998-2006). Cada um deles marcou São Paulo pela caridade pastoral e testemunho de compromisso missionário.

Dom Odilo Pedro Scherer, o 7° Arcebispo nessa seqüência, designado por Bento XVI, assumiu o pastoreio da Arquidiocese de São Paulo em 29 de abril de 2007. Confiante na Providência Divina, e grato pela missão que a Igreja lhe confiou, colocou-se à disposição de todos, para servi-los na medida de suas forças:

 

“Já os trago a todos no meu coração. Saúdo, com respeito, as autoridades e todas as pessoas que têm responsabilidades públicas; abraço os padres e diáconos, religiosas e religiosos, as lideranças do laicato e todo o querido povo das comunidades da Arquidiocese. Saúdo com carinho os doentes, os pobres e todos aqueles que carregam uma pesada cruz de sofrimentos; peço que Deus os conforte e assista” (Mensagem ao povo de São Paulo, por ocasião de sua nomeação, no dia 21 de março de 2007).

 

O lema do centenário, “Deus habita esta cidade!” (Sl 47,9), mostra a convicção de que Deus ama seus habitantes. É um anúncio cheio de esperança de que não estamos sozinhos diante dos problemas e angústias do dia-a-dia da cidade. É um compromisso de anunciar a presença e a ação de Deus nesta cidade e na vida de cada pessoa. Este compromisso se realiza, quando testemunhamos a comunhão eclesial, a prática das virtudes, especialmente da fé, esperança e caridade, o respeito por toda pessoa e o empenho, com os demais habitantes da cidade, na edificação de uma sociedade justa e solidária.

A cidade de São Paulo recebeu a visita de dois Papas, com o objetivo de nos estimular na prática da caridade e na evangelização. Muitos ainda se recordam das palavras de João Paulo II aos trabalhadores, no Estádio do Morumbi, da celebração no Campo de Marte e do encontro com as pessoas de vida consagrada. Finalmente, Bento XVI alegrou profundamente a cidade, quando mostrou a força missionária da Igreja Particular, na canonização de Frei Galvão, e o dinamismo desta Igreja, para o futuro, no encontro com os jovens no Pacaembu. Outro ponto significativo foi seu encontro com os Bispos na Catedral na Sé.

A história da Arquidiocese testemunha uma tradição de serviço e missão em todos os campos da vida. Além do serviço religioso, ela sempre atuou na promoção da dignidade humana, na educação, na saúde e na assistência social. Articulada com várias organizações sociais e com o poder público, sempre defendeu e promoveu o bem comum. A Igreja sempre esteve junto com o povo, pela prática da caridade e pelo anúncio da Palavra de Deus. E nisto consiste a ação de discípulos-missionários. É uma Igreja que acolhe, orienta e aponta para o encontro com Jesus.

 

3. O campo da missão e seus desafios

A cidade de São Paulo, onde se encontra a Arquidiocese, possui uma população de onze milhões de habitantes; se considerarmos o conjunto da região metropolitana, são até dezenove milhões.

A Arquidiocese ocupa mais de um terço do território e atende a mais do que a metade da população do Município. (Além da Arquidiocese, as Dioceses de Campo Limpo, Santo Amaro e São Miguel Paulista estão no território da cidade.) Em números absolutos, a Arquidiocese abrange uma população de cerca de 5.277.241 habitantes, com densidade demográfica de oito mil e trezentos habitantes por quilômetro quadrado (8.300 hab/km²). Além disso, atende a uma multidão de transeuntes, provenientes de outras cidades e Estados, que necessitam de acolhimento e de orientação religiosa. As igrejas centrais têm que estar abertas para atender a essa população.

Vários indicadores sociais, tais como o Índice de Desenvolvimento Paulista (IDPS), a Pesquisa de Condições de Vida (PCV), o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ), mapas e instrumentos de avaliação da realidade, permitem o conhecimento da realidade da cidade. É necessário interpretar os dados que oferecem, com o olhar de discípulos-missionários de Jesus Cristo. (Cf. sites www.seade.gov.br; www.pnud.org.br; www.unicef.org.br; www.ibge.gov.br; www.ipea.gov.br)

Neste Plano, não se pretende fazer uma análise científica do contexto social no qual se realiza nossa missão. Seu objetivo é evidenciar como os fenômenos sociais afetam a vida do povo, no sentido religioso e ético. Nosso povo busca.

 

“[...] infatigavelmente o rosto de Deus e, no entanto, deve fazê-lo, agora, desafiado por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo. [...] Nesse novo contexto sociocultural, a realidade para o ser humano se tornou cada vez mais sem brilho e complexa, ensinando-nos a olhá-la com mais humildade” (DAp 35-36; DGAE 14).

 

A cidade de São Paulo possui um acervo cultural constituído pelas melhores universidades do País, bibliotecas, teatros, centros de exposições. Nela está situado um dos maiores mercados financeiros da América Latina, com seus bancos, os grandes escritórios de multinacionais, um parque industrial invejável, extensas redes de serviços. No aspecto político, reúne grande diversidade de partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos e organizações não-governamentais de diferentes matrizes ideológicas em jogo no processo democrático.

Apesar da pujança da cidade, os indicadores sociais revelam a coexistência da riqueza e da pobreza. O Mapa da Vulnerabilidade Social da População da cidade de São Paulo, elaborado pela Prefeitura Municipal, aponta os distritos periféricos e os bolsões de miséria como os espaços de maior exclusão social, sem equipamentos básicos de assistência e outros serviços públicos. O dia-a-dia de miséria em que vive grande parcela da população fere os princípios do Evangelho.

Indicadores sociais apontam as condições para o aumento da violência urbana. O medo da violência e o medo de denunciá-la favorecem o comércio de equipamentos de segurança, a construção de muros, grades, o uso de portões eletrônicos, os serviços de seguranças particulares e o acesso bancário pela Internet, fatores que aumentam o isolamento social. Em algumas regiões, o Estado está praticamente ausente, e isto permite a proliferação do crime organizado.

Pessoas oriundas de diversos Estados do Brasil são atraídas pelas promessas do mundo urbano e de sua riqueza. O crescimento imobiliário e populacional desordenado, sem um sistema ético de planejamento urbano, leva São Paulo a enfrentar grande dificuldade no escoamento do trânsito, que se torna cada dia mais lento. 

O individualismo, próprio dos centros urbanos, não impede, porém, a organização e as lutas da população pela promoção dos direitos humanos, respeito ao meio ambiente, moradia digna e acesso a melhores serviços de saúde e lazer. Vários grupos, associações e movimentos têm conquistado qualidade de vida e direitos sociais.

São Paulo, por ser pólo da economia, cultura e poder político, centraliza e irradia forças e mobilizações em prol da justiça, da fraternidade e da paz. O Grito dos Excluídos Latino-Americanos, por exemplo, manifesta uma consciência planetária e a percepção de que fazemos parte de uma única família universal.

Com os esforços da sociedade civil e do Estado, as agências de pesquisa têm constatado uma diminuição das mazelas sociais no Brasil e na cidade de São Paulo, nas últimas décadas. Acredita-se que essa melhora se deva, também, à atuação das pastorais sociais e de movimentos e organizações, muitas delas ligadas à Igreja, que oferecem alternativas econômicas e de lazer à população, cursos profissionalizantes e centros de convivência para jovens, famílias, mulheres, crianças e idosos. As comunidades preocupam-se continuamente com os pobres e doentes, e lhes prestam serviços de caridade.

Num rápido olhar sobre a cidade de São Paulo, percebem-se nela sinais de vida e de morte. Cabe à Igreja, no seu processo de evangelização, fortalecer os sinais de vida, porque ela crê que Deus está presente nesta cidade e ama o seu povo.

 

“Cremos ser importante que Deus habite esta cidade. É bom e faz bem para todos os seus habitantes. Que ninguém tenha medo de Deus! Ele nada tira do homem daquilo que é bom, belo e nobre. No entanto, se olharmos ao nosso redor com realismo, poderemos constatar que há muitas situações que falam mais da ausência de Deus do que da sua presença. Onde acontece a violência e o desrespeito à vida das pessoas, onde o egoísmo impera e os cidadãos mais fracos e indefesos são esmagados, onde existe o fechamento diante da dor e dos sofrimentos do próximo, ali a presença de Deus está sendo negada. A pobreza e a miséria humilhante de tantos habitantes desta cidade certamente não falam da glória de Deus. E também depõem contra a glória de Deus as injustiças sociais persistentes, a violência e os fatos de desrespeito à dignidade e à vida da pessoa humana, bem como o abandono em que se encontram tantos filhos e filhas de Deus. O compromisso da Igreja e de todos os seus membros e organizações com São Paulo é o de ajudar esta cidade a ser morada digna de Deus; e será morada tanto mais digna de Deus, quanto mais for respeitosa da obra de Deus manifestada em toda a natureza e nos seres humanos; quanto mais for justa e solidária com todos os filhos e filhas de Deus que nela habitam. É, pois, missão de pessoas que crêem em Deus, de nossas Igrejas, paróquias, comunidades e demais organizações, bem como de nossas obras sociais, educacionais e culturais, serem sinais da presença amorosa de Deus com o povo de São Paulo. E a Igreja, em São Paulo, confia no dinamismo de seus membros, os leigos, presentes em todo o tecido social, contando com aqueles que têm liderança e desempenham missões de especial responsabilidade social. Deus, que habita esta cidade, convida todos a serem colaboradores generosos na construção de uma cidade boa para todos.” (D. Odilo Pedro Scherer.)

 

As transformações tecnológicas e científicas em escala mundial têm trazido conseqüências para todos os setores da vida humana e produzido impactos na cultura, na economia, na política, na educação, no esporte, na arte, na religião e na ética. Esse movimento obscurece a percepção da presença de Deus e torna “opaco, também, o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para todos os seres humanos” (DAp 35). Perder o sentido de Deus é também perder o sentido da vida.

O olhar do discípulo, porém, contempla a cidade para além do mercado, da exploração, da sedução do consumo, da coisificação das relações, da desvalorização do corpo e da vida. Nessa relação de vida e de morte, o discípulo-missionário consegue perceber e testemunhar a presença da graça de Deus, para que a cidade possa reencontrar o sentido de Deus e o valor da vida.

 

3.1. A cidade com sua dinâmica

A cidade tem uma lógica própria. Nela, a Igreja precisa encontrar seus interlocutores, seus espaços e momentos adequados. Essa atitude requer critérios estabelecidos de acordo com a Palavra de Deus, para que as diferentes vozes e forças urbanas sejam direcionadas ao bem da comunidade.

Para fortalecer os caminhos da evangelização e responder com a Palavra de Deus aos seus apelos, é necessário tocar na cidade de São Paulo, compreender o quanto possível sua vida e os contrastes presentes no seu cotidiano, a dinâmica dos nervos urbanos, sua realidade plural e em constante mudança, a diversidade das vozes que nela ecoam, dialogam e interagem.

Na cidade, luzes e sombras se misturam no universo da mídia, nas estratégias e códigos da linguagem local, no comércio, no trânsito, nas organizações de representação popular, nas empresas nacionais e internacionais, nos interesses políticos, na segurança pública, nas religiões, na cultura popular, na diversidade cultural, nos territórios em que “tribos” urbanas se confrontam e se ajustam, no mundo do trabalho, da moradia, da saúde e da educação.

A lógica do consumo tende a excluir os pobres, deficientes, doentes e idosos, que acabam perdendo seu lugar social, pois são avaliados somente pela utilidade. Enfatiza-se o consumo como uma aspiração humana, fortalecem-se o pragmatismo e o narcisismo (cf. DAp 50-51). Diante disso, o que está em jogo na dinâmica da cidade é a deterioração ou a construção do tecido social (cf. DAp 78).

Ao lado das oportunidades de vida melhor, em São Paulo multiplicam-se situações de exclusão e violência, radicadas numa compreensão materialista das relações humanas e do mundo, que rejeita a ética da vida e do amor. Nesse contexto, o medo, o isolamento, a insegurança e a repressão são formas comuns de se reagir aos desafios da violência, da criminalidade e da desigualdade social.

Se aqui se destrói a vida, muitas forças emergem a favor da vida, nas muitas práticas de solidariedade e caridade que permeiam o cotidiano. Em meio às múltiplas vozes e forças atuantes, a Igreja apresenta à cidade uma proposta de vida na qual as pessoas se realizem e se sintam realizadas, porque seguem Jesus Ressuscitado, Caminho, Verdade e Vida. Isto é para a Igreja uma exigência.

O discípulo-missionário está seguro de que “só quem reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano” (DAp 42). Desse modo, mergulha na Palavra, na realidade da cidade e na comunidade de fé, para ter condições de ser profeta, sacerdote e pastor, em meio às “complexas transformações socioeconômicas, culturais, políticas e religiosas que fazem impacto em todas as dimensões da  vida” (DAp 511). Conviver com as diferenças, sem perder a identidade cristã e católica, é um dos desafios que deve enfrentar.

 

3.2. A cultura com suas expressões urbanas

Uma das marcas da cultura urbana, que se consolidou em São Paulo nas últimas décadas, é a sensação de liberdade e de poder. A cidade reforça a autonomia do indivíduo em relação aos grupos naturais, família, vizinhança, raça, religião, etnia. Cada pessoa pode isolar-se e viver o seu mundo. Para os jovens, isso significa libertação da fiscalização permanente. O anonimato e a solidão levam muitos a buscar comunidades, grupos de referência e associações que lhes permitam estabelecer relações afetivas satisfatórias.

No movimento urbano, o distante e o próximo se encontram e desencontram. O futuro é incerto e, portanto, valem o aqui e agora. Sempre é tempo de tudo e para tudo. Cada pessoa pertence, simultaneamente, aos espaços da moradia, do trabalho, da prática religiosa, do lazer, do estudo, e a espaços virtuais. Envolvido pelo fenômeno da condensação do tempo e do espaço, o povo, especialmente os jovens, agarra-se ao presente, como se o passado não fosse importante.

Redes de TVs, rádios, jornais, centros de Internet, agências de notícias e telefonia, jornalistas e repórteres, em permanente plantão, transformam os fatos em linguagem comunicativa. Penetram em todos os ambientes, criam e destroem sonhos de se tornar celebridade, cantor, artista, jogador de futebol, modelo, estimulam o fascínio do dinheiro, do poder e da fama.

Espaço do grande mercado e das exposições, em São Paulo tudo pode ser visto e consumido, para satisfação de desejos, necessidades e prazeres. Podemos fazer compras a qualquer hora, até de nossas casas. Todos nós conhecemos supermercados que funcionam em tempo integral. Sempre alguém oferece alguma coisa, religião, cultura, comestíveis, carros, casas, saúde, música, sexo, sorte. As avenidas expõem os carros e as classes sociais. Multiplicam-se as oportunidades de entretenimento, as manifestações culturais, as bandas, os centros de lazer, museus, teatros, restaurantes, casas noturnas e baladas. Predominam a cultura do corpo, proliferam as academias, centros de estética e cirurgias plásticas.

Por uma perspectiva virtual, tudo se transforma em espetáculo e ganha uma aparência de positividade, fama e sucesso. Até mesmo as práticas de violência, os acontecimentos familiares, a destruição da vida, as atitudes antiéticas e criminosas. É aí que o marketing investe na imagem, seduz e gera consumidores. Na política, por exemplo, ganha a eleição quem tem um excelente marqueteiro. A pergunta que fazemos é se assim está correto, sobretudo quando se trata da religião, dos valores morais e culturais.

A ética que prevalece é a que obedece à lógica do mercado e do lucro. A política, a religião, as práticas de solidariedade, o conhecimento, a ciência se tornam mercadorias. O indivíduo se julga com direito total à felicidade, como bem privado. Os bens da cidade devem estar a seu serviço. As uniões passageiras, a separação entre casamento e procriação, as parcerias conjugais do mesmo sexo debilitam as relações humanas e familiares, violentam o sacramento do matrimônio. O aborto é, hoje, questão do mercado e do marketing, que pretendem induzir homens e mulheres a terem esse desejo e a praticá-lo.

Podemos afirmar que a cultura de São Paulo “é híbrida, dinâmica e mutável, pois amalgama múltiplas formas de valores e estilos de vida e afeta toda a coletividade” (DAp 58). A cidade permite multiplicar as oportunidades e possibilidades de contato com outros modos de vida, rostos, etnias, ideologias, línguas, religiões, expressões lingüísticas, festas e expressões folclóricas.

As mudanças culturais trouxeram alguns valores, como o respeito à consciência, o desejo de encontrar o sentido da vida e da transcendência, ainda mais após os fracassos das ideologias dominantes. A “ênfase na apreciação da pessoa abre novos horizontes, onde a tradição cristã adquire renovado valor, sobretudo quando a pessoa se reconhece no Verbo Encarnado” (DAp 52), em sua condição de pobreza e humildade.

 

3.3. As dimensões política, econômica e social

Centro produtor de riqueza e pobreza, dotada de alto poder de atração, inclusão e exclusão, a cidade exerce influência nacional e internacional na política e na economia. Nela, convivem diferentes elites econômicas, sociais e políticas, a classe média com seus diferentes níveis, e uma multidão de pobres.

São Paulo influencia o mundo da economia globalizada e é por ele influenciada. A globalização, fenômeno complexo e irreversível, tem como uma de suas tendências o privilégio do lucro e da concentração “dos recursos físicos e monetários, mas, sobretudo, da informação e dos recursos humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles não suficientemente capacitados e informados, aumentando as desigualdades que marcam tristemente o nosso continente e que mantêm na pobreza uma multidão de pessoas” (DAp 62). A economia globalizada tem seus ganhos, quando orientada por princípios éticos e colocada a serviço da pessoa humana.

É inquestionável a deterioração da política na sociedade brasileira, enfraquecida pela corrupção e pela dominação dos grandes grupos econômicos. Às vezes, temos a sensação de que o Estado foi assaltado por grupos antiéticos, que transformam a política em balcões de negócios, em detrimento da vida. A cidade reproduz os limites e os avanços da política brasileira.

As políticas sociais, na cidade, apesar de contribuírem para ampliar as oportunidades e integrar os indivíduos, não conseguem romper as barreiras da desigualdade social e da miséria e suas implicações. Uma das causas é o desvio dos recursos destinados às políticas sociais, cujos benefícios nem sempre chegam aos mais necessitados na cidade, e sim a uma “elite da pobreza”, a políticos, empresários e lideranças que revertem a seu favor as necessidades do povo.

Essa dinâmica levou os cidadãos ao desencantamento e à “diminuição da confiança nos políticos, nas instituições públicas e nos três poderes do Estado. Em contrapartida, surgiram novos sinais de esperança e de empenho político, como muitas organizações alternativas não-governamentais [...], movimentos sociais sem vinculação partidária, para defender, com energia, os direitos individuais e para expressar a esperança de outro mundo possível” (DGAE 33).

O sucateamento da política tem forçado a sociedade a uma atitude de maior protagonismo e fez emergir atores sociais a favor da democracia participativa (cf. DAp 75). São Paulo tem potencial político para uma gestão mais localizada e eficiente, que administre melhor a relação entre o mercado e o bem-estar dos cidadãos. O povo e as organizações paulistanas cobram do poder local justiça social, políticas sociais que respondam às necessidades da população, assim como credibilidade e confiança na administração dos bens públicos, respeito à cidadania e ao contribuinte.

A formação política das comunidades e atividades que propiciem uma ação positiva em prol da ética na política e da formulação de políticas públicas que dêem prioridade à família é uma das estratégias para se reduzir a desigualdade social e a violência, a insegurança e outras mazelas, de modo a romper com um modelo de políticas públicas impostas pelo Governo Federal. O modelo econômico tem produzido novas formas de exclusão social quanto ao acesso e ao uso das tecnologias, e o próprio analfabetismo funcional, numa dinâmica econômica promotora da “iniqüidade e de injustiças múltiplas” (DAp 61).

Um dos desafios da Arquidiocese de São Paulo é despertar ainda mais a consciência de que a lógica do mercado tem seus limites. Acima dela está o cidadão e, por isso, todo o esforço deve ser feito para evitar que a economia se imponha com tal força que venha a destruir a vida e o sistema ecológico. A organização econômica existe para proteger e garantir o desenvolvimento dos seres viventes. Nesse sentido, as múltiplas experiências de fé, solidariedade e valorização dos princípios evangélicos no cotidiano da cidade devem se fortalecer para enfrentar a rejeição a um código de ética e a critérios de comportamento coerentes com a dignidade humana.

No campo social, a família é o grupo mais atingido pelas mudanças, pela afirmação do individualismo e do subjetivismo, pela perda das referências cristãs e éticas. Este fato desperta várias questões morais, sobretudo em relação à vida e à dignidade das relações humanas. A ideologia de gênero tornou-se vital no debate da reorganização ou desorganização da família. A ideologização da questão de gênero fere “[...] gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e a identidade da família” (DAp 40).

Diante desse quadro, os discípulos-missionários necessitam contemplar o mistério revelado por Jesus Cristo e apresentar critérios e pistas que possibilitem a realização da vocação e do sentido da existência humana. É preciso buscar a sabedoria de Deus, encarnada no seu Verbo, Jesus Cristo (1Cor 1,30): “[...] que o zelo missionário nos consuma para levar ao coração da cultura do nosso tempo aquele sentido unitário e completo da vida humana, que nem a ciência, nem a política, a economia e nem os meios de comunicação poderão proporcionar-lhe” (DAp 41).

Essas considerações nos remetem ao imperativo de evangelizar de maneira vital, em profundidade e até as raízes, a civilização e a cultura do povo que reside na cidade de São Paulo. O Evangelho não se identifica com a cultura. E, no entanto, o Reino que o Evangelho anuncia é vivido por pessoas profundamente ligadas a nossa cultura e não pode deixar de lado os elementos dessa realidade. A cidade deve ser regenerada “mediante o impacto da Boa Nova. Mas tal encontro não virá a dar-se se a Boa Nova não for proclamada” (EN 20). O processo de evangelização contribui para a construção de uma cultura da paz na cidade de São Paulo.

 

3.4. A diversidade de credos e de expressões de fé

Num contexto de inversão dos valores e do sentido religioso, algumas expressões religiosas de cunho psicologista e naturalista dão a entender que não há necessidade de uma vida comunitária. Muitas vezes, transformam as práticas religiosas em comunidades virtuais que fortalecem o individualismo e acabam por criar uma religião fundada numa sensação de bem-estar individual.

“Neste caso, a religião deixa de ser pensada e vivida como uma forma de reconhecimento, adoração e entrega ao Criador, obediência na fé, serviço a Deus e vivência comunitária. É vista numa ótica utilitarista, por oferecer bem-estar interior, terapia ou cura de males, sucesso na vida e nos negócios” (DGAE 39), na política, no trabalho, na vida amorosa. Quando a profissão de fé se entende como assunto privado, cada um escolhe a que mais lhe convier. Em situações-limite, há quem aceite qualquer mensagem ou rito que atenda de forma imediata às suas aflições e desejo do sagrado. Nesse contexto, os grupos neopentecostais e esotéricos apresentam a religião como solução para qualquer tipo de dificuldade e necessidade.

A cidade de São Paulo possui múltiplas expressões religiosas (cf. PAMP). Esta diversidade requer da Arquidiocese a oferta de uma sólida formação dos fiéis na Palavra de Deus, na tradição dos Apóstolos e na doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana. A falta de uma iniciação cristã mais aprofundada e de impulso missionário permite o aumento de pessoas que se declaram sem religião ou que afirmam não acreditar em Deus.

Nos últimos anos, com a evasão dos fiéis para outras expressões religiosas, tem diminuído a mediação da Igreja Católica, assim como o número de católicos (cf. DGAE 40-42). Há uma crescente descrença na mediação do sacerdote e da Igreja na relação entre Deus e o ser humano. Na realidade, “o número de católicos que chegam a nossa celebração dominical é limitado; é imenso o número dos distanciados, assim como o número daqueles que não conhecem a Cristo” (DAp 173). Como chegar a eles com o anúncio do Evangelho?

A Arquidiocese deseja, ardentemente, ajudar o povo a perceber que a fé em Jesus Cristo não é um negócio, não se pode comprar. A fé depende do anúncio da Palavra e da ação do Espírito. Ela nasce de um encontro com Jesus, que precisa ser alimentado pela Palavra, pela oração, pelos sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Penitência, pela participação comunitária e a prática da caridade.

Apesar das dificuldades, limites e ambigüidades presentes nas comunidades e nas lideranças, a Igreja Católica como um todo tem dado “testemunho de Cristo, anunciado seu Evangelho e oferecido seu serviço de caridade, principalmente aos mais pobres [...]. Os esforços pastorais, orientados para o encontro com Jesus Cristo Vivo, deram e continuam dando frutos” (DAp 98-99).

A conversão ao Evangelho e a vida nova em Cristo podem trazer à cidade a solução às situações que negam o Reino de Deus. A expectativa da Arquidiocese de São Paulo é que os batizados sejam verdadeiros discípulos de Jesus Cristo e missionários ardorosos. Não se trata apenas de preparar alguns missionários, mas de estimular cada católico a sê-lo de maneira corajosa e eficaz. Cabe aos sujeitos da missão catequética aprofundar a formação religiosa dos católicos, principalmente daqueles que misturam doutrinas e acabam por desvalorizar a doutrina da Igreja sobre os sacramentos e sua prática.

 

Perguntas norteadoras para o Ver

 

Após esta tentativa de lançar um olhar cristão (de discípulos-missionários de Jesus Cristo) sobre nossa cidade de São Paulo, procure destacar quais são, a seu ver:

1. Os grandes valores e contribuições da presença da Igreja em nossa cidade.

2. As principais dificuldades da Igreja para realizar bem sua missão na cidade de São Paulo.

3. Os desafios que os católicos e as comunidades da Igreja precisam enfrentar para serem, de fato, discípulos e missionários de Jesus Cristo na cidade de São Paulo.

Procure refletir sobre isso, pessoalmente, mas também na sua paróquia, comunidade, grupo pastoral, movimento, escola ou colégio católico, no seu Setor e Região Episcopal.

 


 

II. MARCO TEOLÓGICO-PASTORAL (Julgar)

 

1. Jesus Cristo, Sacerdote, Profeta e Pastor

Nossa Igreja está estreitamente relacionada com Jesus Cristo; ele é seu fundador e guia. A missão da Igreja consiste em continuar a missão de Jesus Cristo. Jesus é verdadeiro Sacerdote, Profeta e Pastor, na unção do Espírito Santo, desde sua encarnação e por toda a eternidade.

Pela graça batismal, somos filhos de Deus em Cristo, participamos de sua tríplice missão. Assim também cada cristão está relacionado estreitamente com Cristo e dele recebe continuamente a motivação e a ajuda para viver sua própria missão.

 

1.1. Jesus Cristo, Santificador da humanidade

Toda a vida terrena do Filho de Deus foi um ato de obediência ao plano do Pai. Em tudo, menos no pecado, Jesus se fez um de nós. “Ele assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana” (Fl 2,7), aceitou partilhar das nossas dores, fraquezas, humilhações e sofrimentos. Embora “fosse Filho, aprendeu a obediência pelo sofrimento e se tornou para todos os que lhe obedecem princípio de salvação eterna” (Hb 5,8), o Redentor da humanidade.

 

“Jesus é o Filho de Deus, a Palavra feita carne (cf. Jo 1,14), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, prova do amor de Deus aos homens. Sua vida é uma entrega radical de si mesmo a favor de todas as pessoas, consumada definitivamente em sua morte e ressurreição. Por ser o Cordeiro de Deus, ele é o Salvador. Sua paixão, morte e ressurreição possibilitam a superação do pecado e a vida nova para toda a humanidade” (DAp 102).

 

A cruz foi o ponto extremo do se sacrifício sacerdotal. Depois de “ter oferecido um sacrifício único pelos pecados” (Hb 10,12), ele entrou no santuário de Deus, como “mediador da nova aliança” (Hb 9,15), selada com seu sangue. Pela obediência “até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2,6-11), Jesus recebeu do Pai o título de Sumo Sacerdote (Hb 5,10). “Em tudo ele se tornou semelhante aos irmãos, para ser, em relação a Deus, um sumo sacerdote misericordioso e fiel, para expiar os pecados do povo” (Hb 2,17).

Jesus possui, para sempre (Hb 7,17), “um sacerdócio imutável e, por isso, é capaz de salvar totalmente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus” (Hb 7,24-25). Cristo Sacerdote apresenta ao Pai a sua Igreja, santa, imaculada e irrepreensível, contanto “que permaneça alicerçada e firme na fé e sem se afastar da esperança do Evangelho que recebeu e que foi anunciado a toda criatura que vive debaixo do céu” (Cl 1,23).

Pela ação litúrgica, Nosso Sumo Sacerdote continua a obra da salvação e da santificação (cf. SC 7c). O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício, que redime e santifica a humanidade. Cada vez que a Igreja celebra a Eucaristia, o sacrifício de Jesus se torna realmente presente, apesar de ter sido único e realizado uma vez por todas. Jesus nos deixou a Eucaristia como um meio de tomarmos parte no mistério da Redenção. Na Missa, Ceia do Senhor, se perpetua o Sacrifício da Cruz. Na comunhão eucarística, participamos da cruz de Cristo e somos chamados a segui-lo em espírito de humildade, amor e serviço.

A presença de Jesus Sacerdote na Igreja enche de alegria, esperança e certeza de reconciliação e de verdadeira aliança com Deus todos aqueles que o seguem. O único sacerdócio de Cristo torna-se presente no sacerdócio ministerial, sem diminuir em nada a unicidade do sacerdócio de Cristo. Ele é o verdadeiro Sacerdote; os demais são seus ministros (CIC 1545). Dele a Igreja recebe continuamente o Espírito Santificador que age nos corações dos discípulos, e orienta-os na prática do bem e a produzirem os frutos da vida cristã.

 

1.2. Jesus Cristo, Palavra do Pai para a vida do mundo

 “Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus” (Jo 3,34), realiza a obra de salvação que lhe é confiada pelo Pai. “Como discípulos de Jesus, reconhecemos que ele é o primeiro e maior evangelizador enviado por Deus (cf. Lc 4,44) e, ao mesmo tempo, o Evangelho de Deus. Cremos e anunciamos ‘a boa nova de Jesus, Messias, Filho de Deus’ (Mc 1,1). Como filhos obedientes à voz do Pai, queremos escutar a Jesus (Lc 9,35), porque ele é o único Mestre” (Mt 23,8), disseram os bispos reunidos em Aparecida (DAp 103).

De fato, Deus falou à humanidade pela boca de seu Filho Jesus, “a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo” (Hb 1,2). Jesus assumiu e realizou o desígnio que a Palavra de Deus contém. Suas ações são sinais da ação de Deus, manifestam a Palavra de Deus. Ele mesmo é a “Palavra de Deus feita carne” e, por isso, ele tem “palavras de vida eterna” para nos comunicar.

O povo reconheceu em Jesus aquele que anuncia e realiza a Palavra de Deus. A multidão dizia: “Este é, verdadeiramente, o profeta!” (Jo 7,40).  E glorificava a Deus, dizendo: “Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou seu povo” (Lc 7,16). A mulher de Samaria, maravilhada com as palavras de Jesus, exclamou: “Senhor, vejo que és um profeta” (Jo 4,19). Quando multiplicou os pães, aqueles que viram o sinal que ele fez exclamavam: “Este é, verdadeiramente, o profeta que deve vir ao mundo” (Jo 6,14).

 

“Jesus saiu ao encontro de pessoas em situações muito diferentes: homens e mulheres, pobres e ricos, judeus e estrangeiros, justos e pecadores... convidando-os a segui-lo. Hoje, segue convidando a encontrar nele o amor do Pai. Por isto mesmo, o discípulo missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente aos pobres e pecadores” (DAp 147).

 

Ele anunciou a boa nova do Reino de Deus a grandes multidões e demonstrou seu poder pelas curas que praticou.

 

“Percorria toda a Galiléia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo. O seu renome espalhou-se por toda a Síria, de modo que lhe traziam todos os que eram acometidos por doenças diversas e atormentados por enfermidades, bem como endemoninhados, lunáticos e paralíticos. E ele os curava. Seguiam-no multidões numerosas, vindas da Galiléia, da Decápole, de Jerusalém, da Judéia e da região além do Jordão” (Mt  4,23-25).

 

Jesus mesmo se atribui a missão de profeta. Na sinagoga de Nazaré, cidade onde cresceu, leu e aplicou a si as palavras de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Agia pela moção do Espírito Santo e realizou as profecias.

O Mestre insistiu na gratuidade do anúncio. Aqueles que o seguem e dele dão testemunho devem ser desapegados dos bens deste mundo. A generosidade dos discípulos-missionários manifesta a generosidade de Deus. “Na gratuidade dos apóstolos, aparece a gratuidade do Evangelho” (DAp 31): “Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias...” (Lc  10,4) O discípulo-missionário toma uma decisão a favor do Reino de Deus, em total conversão e mudança de vida, pois “quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (LC 9,62).

Ele enviou os discípulos para anunciarem, abertamente e sem medo, o Reino de Deus, mesmo até o fim dos tempos. Suas palavras são espírito e vida (Jo 6,63.68). Sua Palavra continua viva e atual na Igreja. “Com a alegria da fé, somos missionários para proclamar o Evangelho de Jesus Cristo e, nele, a boa nova da dignidade humana, da vida, da família, do trabalho, da ciência e da solidariedade com a criação” (DAp 103).

Jesus censurou a incredulidade dos sacerdotes, condenou a hipocrisia e a arrogância do comportamento farisaico, denunciou o rei e seus partidários (Mt 22,16-22),  condenou explicitamente o comércio da religião. “Entrou no templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas: A minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, fazeis dela um covil de ladrões” (Mt 21,12-13).

Jesus Cristo anunciou o Evangelho do Reino de Deus ao mundo, convidou todos a serem discípulos seus e do Reino de Deus. Sua Palavra é caminho, verdade e vida para a humanidade, e precisa continuar a ser anunciada ao mundo inteiro. Ser cristão é ser discípulo de Cristo, acolhendo dele constantemente as “palavras de vida eterna”.

 

1.3. Jesus Cristo, o Pastor bom

Jesus é o Pastor bom, que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10,11). Ele se sente responsável pelo povo, identifica-se  e solidariza-se com ele. “Ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). O Mestre dedicou uma atenção especial aos oprimidos e pobres, aos doentes e famintos, aos injustiçados, aos rejeitados e aos que são odiados por causa do seu nome (Lc 6,21-23).

O Mestre passou fazendo o bem. Ele curou os enfermos, expulsou o mal, perdoou os pecados, criou a justiça e a paz pela força do Espírito. “Colocou-se ao lado dos indefesos, dos marginalizados, dos oprimidos e até dos estrangeiros e dos pecadores. Emprestou-lhes a voz, transmitiu força messiânica e a misericórdia do Pai. Com isto, agiu contra a marginalização e combateu um sistema de profunda exclusão social, econômica, política e religiosa” (CNBB Doc. 69, nº 27).

Jesus quer “que todos tenham vida, e vida em plenitude” (Jo 10,10). Para isso, veio reunir o povo disperso e sem pastor. Busca as ovelhas perdidas, para reconduzi-las ao seu rebanho.  “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem. Mas tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; devo conduzi-las, também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,14.16). São Pedro mostra como de fato isso aconteceu: “Pelas feridas de Jesus fostes curados, porque estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora retornastes ao Pastor e Supervisor de vossas almas” (1Pd 2,24-25).

Jesus é o Rei-Pastor que não veio para ser servido, mas para servir, e dar a vida em redenção por muitos, isto é, por todos (cf. Mc 10,45). Seu rebanho será sempre o reino dos que amam até mesmo o inimigo, que perdoam com generosidade, que vivem de forma coerente com sua fé (cf. Lc 6,27-49). Seu sacrifício na cruz é sinal do Reino de Deus, que iria manifestar-se plenamente depois de sua ressurreição.

O Pastor bom transmite sua autoridade de pastor a alguns discípulos, para que sejam pastores de seus irmãos, com caridade e zelo pastoral. Ele ensina a motivar, animar, orientar, acompanhar, servir  e santificar o rebanho.

Jesus Cristo é o Pastor bom da Igreja; por isso, a vida cristã é a experiência do encontro e seguimento de Cristo: olhar para ele, deixar-se conduzir por ele, obedecer-lhe, esperar nele a vida eterna cada dia. Mas Cristo quer ser também o Pastor bom de toda a comunidade humana, que ele quer encontrar, reunir e conduzir com amor. Sua missão de bom Pastor continua na Igreja até o fim dos tempos; por isso, ela deve ter o olhar e a atitude “pastoral” de Cristo diante de todas as situações vividas pela comunidade humana, especialmente diante das necessidades, sofrimentos e angústias das “ovelhas” do rebanho do Senhor.

Nossa Arquidiocese quer discernir, em meio à complexidade da cidade, os sinais da presença de Deus e dos seus desígnios. Ela quer responder a esses apelos de forma coerente com sua vocação de seguidora de Jesus Sacerdote, Profeta e Pastor.

 

2. A Igreja participa da missão de Cristo

Comunidade dos discípulos-missionários de Cristo, a Igreja é o povo que Deus trouxe das trevas para a luz e sobre o qual derramou a plenitude do seu Espírito e da sua misericórdia. É o povo que o Pai escolheu, convocou, reuniu, redimiu, santificou e enviou para continuar a missão de Jesus.

Incorporados à Igreja pelo Batismo, todos nós recebemos do Pai a dignidade de filhos e herdeiros de Jesus Cristo. Temos a mesma vocação a uma única esperança, na certeza de que “há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,5). Como povo de Deus, formamos o corpo do qual Cristo é a cabeça, e nós os membros (cf. 1 Cor 12,27). “Pois fomos todos batizados num só Espírito, para ser um só corpo, e todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,13).

Através da Igreja, realiza-se o projeto de Deus de reunir em Cristo todas as coisas (Ef 1,9-10). Participante da missão de Cristo, a Igreja em São Paulo é chamada a ser luz para a cidade. À medida que vive e proclama os valores do Reino de Deus, ela se constitui como sinal de salvação para todo o povo.

 

2.1. Povo reunido na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo

A Igreja é, por essência, comunhão no amor. Isto porque tem como modelo o mistério de amor da Santíssima Trindade. Como discípulos de Jesus, somos chamados a viver na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos os membros do povo de Deus, segundo seus dons e sua vocação, são convocados à missão, no espírito de comunhão e santidade. A vida em comunidade liberta do isolamento, conduz à unidade e promove o caminhar da Palavra de Deus (cf. DAp 155-156).

Apesar da tendência cultural de se viver como cristãos sem Igreja, é preciso destacar que a comunhão fraterna numa comunidade concreta é o que distingue a experiência da vocação cristã de um sentimento religioso individual. É nela que se realiza a experiência de fé dos discípulos-missionários (cf. DAp 164). A Igreja é a família dos filhos de Deus, membros do mesmo Corpo de Cristo (cf. 1Cor 10,17), que escutam o ensinamento dos apóstolos, vivem unidos e participam do partir do Pão Eucarístico e das orações (cf. At 2,42).

A Eucaristia reúne os batizados como filhos e filhas do Pai e irmãos e irmãs em Cristo. O Pão da Palavra de Deus e o Pão do Corpo de Cristo alimentam a comunhão. “A Igreja que a celebra é ‘casa e escola de comunhão’, onde os discípulos compartilham a mesma fé, esperança e amor a serviço da missão evangelizadora” (DAp 158). Em obediência ao novo mandamento do amor, procuram viver unidos à mesma Cabeça, Cristo, chamados a cuidar uns dos outros (cf. DAp 161).

A vocação missionária é também um chamado à comunhão trinitária. Refletir a glória do amor de Deus, que é comunhão, é o meio principal de atrair as pessoas para Cristo. A comunhão, que reflete a glória do amor de Deus, atrai as pessoas e os povos para Cristo (cf. Jo 13,34-35). A Igreja evangeliza quando dá testemunho de fraternidade. Ela cresce “por ‘atração’, quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se se amarem uns aos outros como ele nos amou” (DAp 159). Não há discipulado sem comunhão. A “comunhão e a missão estão profundamente unidas entre si. A comunhão é missionária e a missão é para a comunhão” (CHL 32, in DAp 163).

A comunhão eclesial cresce na unidade e na diversidade dos dons e carismas: “Cada batizado é portador de dons que deve desenvolver em unidade e complementaridade com os dons dos outros, a fim de  formar o único Corpo de Cristo, entregue para a vida do mundo. Cada comunidade é chamada a descobrir e integrar os talentos escondidos e silenciosos com os quais o Espírito presenteia aos fiéis” (DAp 162).

A união e intimidade com Cristo alimenta a vida comunitária e a atividade missionária. Jesus mostra isso, quando chama os Apóstolos a viverem em comunhão com ele, quando os reúne para explicar-lhes os mistérios do Reino de Deus e os envia em missão (cf. DAp 154). Esta intimidade se completa “na comunhão dos santos, ou seja, a comunhão nos bens divinos entre todos os membros da Igreja, em particular entre os que peregrinam e os que já gozam da glória celeste” (DAp 160).

 

2.2. Povo identificado com Cristo

O que torna a Igreja verdadeiramente identificada com Cristo é a vivência da caridade na vida de cada batizado. “Todos reconhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns para com os outros” (Jo13,35). Este amor “não pode deixar de ser a característica de sua Igreja, comunidade discípula de Cristo, cujo testemunho de caridade fraterna será o primeiro e principal anúncio” (DAp 138).

A admiração por Jesus, a adesão a sua pessoa, a intimidade e o compromisso com sua Palavra tornam o discípulo parecido com o Mestre. No seguimento de Jesus Cristo, aprendemos e praticamos as bem-aventuranças do Reino. Contemplar no Evangelho “o estilo de vida do próprio Jesus: seu amor e obediência filial ao Pai, sua compaixão entranhável frente à dor humana, sua proximidade dos pobres e dos pequenos, sua fidelidade à missão encomendada, seu amor serviçal até a doação de sua vida” (DAp 139), ajuda o discípulo e a comunidade a descobrir qual é a melhor forma de se identificar com o Mestre.

É necessário, portanto (LG 7e), que

 

“todos os membros da Igreja se conformem com ele, até que Cristo seja formado neles (Gl 4,19). Por isso, somos inseridos nos mistérios de sua vida, com ele configurados, com ele mortos e com ele ressuscitados, até que com ele reinemos (cf. Fl 3,21; 2Tm 2,11; Ef 2,6; Cl 2,12). Peregrinando ainda na terra, associamo-nos às suas dores como o corpo à Cabeça, para que, padecendo com ele, sejamos com ele também glorificados” (Rm 8,17).

 

Por sua entrega a Jesus, Caminho, Verdade e Vida, o discípulo-missionário dá uma resposta de amor a quem o amou primeiro, “até o extremo” (Jo 13,1). Desse modo, torna-se apto a compartilhar o destino do Mestre, até a cruz, se necessário (cf. DAp 140).

A Mãe de Jesus é um modelo admirável de identificação com o projeto divino de reunir em Cristo todas as coisas. Ela nos convida a fazer a vontade de Jesus, na plena liberdade dos nossos corações (cf. DAp 141).

 

2.3. Povo animado e assistido pelo Espírito Santo

O Senhor Ressuscitado comunicou à sua Igreja o mesmo Espírito vivificador que o acompanhou durante sua vida e missão (cf. At 10,38). Em Pentecostes, o mesmo Espírito se derramou sobre a Igreja na profusão dos seus dons. Desde o primeiro instante, o Espírito Santo conduziu,  animou e assistiu a Igreja, no anúncio da Palavra, na celebração da fé e no serviço da caridade.

 “Marcada e selada ‘com o Espírito Santo e fogo’ (Mt 3,11), a Igreja continua a obra do Messias, abrindo para o crente as portas da salvação” (DAp 151). No “templo do Deus Vivo” (2Cor 6,16), o mesmo Espírito une os membros da Igreja entre si e com sua Cabeça, Cristo. “Desse modo, pela presença eficaz de seu Espírito, Deus assegura até a parusia sua proposta de vida para homens e mulheres de todos os tempos e lugares, impulsionando a transformação da história e seus dinamismos” (DAp 151).

O Espírito age de muitas maneiras para a edificação do Corpo de Cristo na caridade, pois está presente tanto na Cabeça, Cristo, quanto nos membros. Atua pela Palavra de Deus, pelos sacramentos, pela graça concedida aos Apóstolos, pelas virtudes e pelos carismas que tornam os seguidores de Cristo aptos para sua missão (cf. LG 12). Pelo Batismo e a Confirmação, “somos chamados a ser discípulos-missionários de Jesus Cristo e entramos na comunhão trinitária na Igreja” (DAp 153). A Santíssima Eucaristia leva à plenitude a iniciação cristã.

O Espírito santifica e conduz o Povo de Deus também por meio dos ministérios, e o adorna com virtudes, “distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz” (1Cor 12,11). “A cada um é dada a manifestação do Espírito para utilidade comum” (1Cor 12,7). Fortalecidos pelos variados ofícios que servem à evangelização e edificam a Igreja (cf.1Cor 12,28-29), os discípulos-missionários propagam “o ministério salvífico do Senhor até que ele de novo se manifeste no final dos tempos (1Cor 1,6-7).

“O Espírito na Igreja forja missionários decididos e valentes como Pedro (cf. Atos 4,13; 13,9), indica os lugares que devem ser evangelizados e escolhe aqueles que devem fazê-lo” (At 13,2)  (DAp 150). Os seguidores de Jesus se deixam conduzir pelo Espírito, na dinâmica do Evangelho (Lc 4,18-19), de modo a “anunciar a boa nova aos pobres, curar os enfermos, consolar os tristes, libertar os cativos e anunciar a todos o ano da graça do Senhor” (cf. DAp 52). O Espírito é a “alma da Igreja” (LG 7g). Ele habita

 

“na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1Cor 3,16; 6,19). Neles ora e dá testemunho de que são filhos adotivos (cf. Gl 4,6; Rm 8,15-16.26). Leva a Igreja ao conhecimento da verdade total (cf. Jo 16,13). Unifica-a na comunhão e no ministério. Dota-a e dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos. E adorna-a com seus frutos” (cf. Ef 4,11-12; 1Cor 12,4; Gl 5,22) (LG 4).

 

O Espírito Santo o Mestre interior, o formador dos discípulos-missionários (cf. DAp 152), que o Pai nos comunica. Ele “identifica-nos com Jesus-Caminho, abrindo-nos a seu mistério de salvação para que sejamos seus filhos e irmãos uns dos outros; identifica-nos com Jesus-Verdade, ensinando-nos a renunciar a nossas mentiras e ambições pessoais, e nos identifica com Jesus-Vida, permitindo-nos abraçar seu plano de amor e nos entregar para que outros tenham vida nele” (DAp 137).

 

2.4. Povo chamado a viver a santidade

Jesus, Mestre e modelo de toda santidade nos convida: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Na Igreja, pela graça de Deus, encontramos a plenitude dos meios para adquirir a santidade. A Igreja é santa, porque Deus habita nela e a santifica, porque Cristo Sacerdote por ela se entregou, uniu-a a si como seu Corpo e lhe comunica os dons do Espírito Santo (cf. LG 39).

Segundo as palavras do Apóstolo: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1Ts 4,3), na Igreja, todos são convidados a procurar a santidade e a perfeição do próprio estado de vida. Os cristãos, de qualquer condição ou estado, cada um por seu caminho, são chamados à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai. Buscar a santidade significa esforçar-se para viver a “plenitude da vida cristã e a perfeição da caridade” (LG 40b).

A disposição para responder generosamente ao chamado à santidade exige uma entrada “na dinâmica do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-37), que nos dá o imperativo de nos fazer próximos, especialmente com quem sofre, e gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus, que come com publicanos e pecadores (cf. Lucas 5,29-32), acolhe os pequenos e as crianças, cura os leprosos, perdoa e liberta a mulher pecadora, fala com a Samaritana” (DAp 135).

Na condição de discípulos-missionários, anunciamos que Cristo redimiu todos os pecados e males da humanidade e nos esforçamos para vencer o pecado, pela intimidade com a Palavra de Deus, a comunhão eucarística, a oração, a participação na comunidade e nos sacramentos, e pela presença ativa junto ao irmão sofredor.

 

2.5. Povo enviado a anunciar o Evangelho

A primeira missão da Igreja é anunciar o Evangelho do Reino de Deus a todos os povos (cf. Lc 24,46-48; Mt 28,19). “Cumprir essa missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã, porque é a extensão testemunhal da vocação mesma” (DAp 144). Como ressalta o Novo Testamento, evangelizar é a vocação primordial, a identidade profunda do povo de Deus (cf. EN 14; DP 348).

A orientação de Jesus sobre a missão da Igreja segue passos bem claros: sair em busca de todos, indistintamente; proclamar o Evangelho; testemunhar e despertar a fé; fazer discípulos; batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinar a cumprir tudo o que ele mandou. Assim o entendeu a Igreja nascente. Os Apóstolos e as primeiras comunidades cristãs estavam dispostos a dar a própria vida pelo anúncio do Evangelho.

A Igreja missionária é enviada por Jesus para anunciar a conversão, a salvação e o Reino de Deus que ele inaugurou. Ela continua sua obra, obediente ao mandado que dele recebeu: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós” (Jo 20,21). Jesus ordenou à Igreja que, em seu nome, fosse proclamado o arrependimento a todas as nações: “Aquele que crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16).

Atenta à ordem do Senhor, a Igreja em São Paulo congrega todos os sujeitos da missão, que são as Regiões Episcopais, os Setores, as Paróquias, Comunidades, Movimentos, Associações, Pastorais, Instituições Católicas, enfim, todas as suas forças vivas, para a evangelização da cidade. Ela não se cansa de anunciar o Evangelho, mesmo diante de confusões, perigos e ameaças e nem de quem queira impedir o anúncio por meio de ideologias, difamações e agressões (cf. DAp 11).

O objetivo do anúncio não é produzir uma simples aceitação cultural do catolicismo (CNBB Doc. 71, nº. 95). O anúncio só será verdadeiro quando levar a uma fé viva, à adesão  pessoal a Cristo e a seu projeto de Reino. Isto implica a proclamação do “nome, doutrina, vida, promessas, do Reino e do mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus” (EN 22). Como discípulos-missionários de Jesus Cristo em São Paulo, precisamos comprometer-nos a seguir os seus ensinamentos e a anunciar a sua Pessoa, sem envergonhar-nos do Evangelho (Mc 8,38).

Para evangelizar a cidade, a Arquidiocese permanece atenta aos sinais e apelos de Deus presentes no cotidiano da cidade. Tem referência a Palavra de Deus, o Magistério da Igreja, as orientações da Conferência de Aparecida, as Diretrizes da CNBB. Desta forma, ela quer ajudar para que todos os habitantes desta cidade tenham vida e dignidade por meio de Cristo (cf. DAp 361).

 

2.6. Povo que caminha a serviço da vida, da justiça e da esperança

Nossa Igreja em São Paulo participa das alegrias, esperanças, tristezas, sofrimentos, expectativas, angústias e sonhos da população da cidade, sobretudo dos mais pobres e desamparados. A todos quer transmitir uma mensagem de vida, justiça e esperança, pois está consciente de que evangelizar significa também defender a dignidade da vocação humana e restituir a esperança aos aflitos. É assim que ela se faz testemunha e sinal de Jesus Bom Pastor na cidade.

A fim de colaborar com a construção de uma sociedade justa e reduzir as práticas que negam a ação de Deus e priorizam o mercado, a Arquidiocese procura conhecer e compreender a realidade, “suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático” (GS 4). Sua convicção é de que a boa nova do Evangelho conduz à realização da vida e da liberdade, frutos da adesão ao projeto de Deus para a humanidade. (GS 21c).

Como povo que vive a Palavra de Deus, participa da construção de uma ordem social fundada na verdade, no amor e na liberdade, impregnada da justiça e da esperança, sempre em vista do bem comum, para que todos tenham a vida abundante que o Senhor nos prometeu.

As experiências comunitárias da Arquidiocese, espalhadas pela cidade, testemunham a face misericordiosa de Deus e alimentam seu projeto de estar presente na luta de todos todos aqueles que defendem os direitos das mulheres, dos trabalhadores, das etnias discriminadas, das crianças, das famílias, dos jovens, idosos, enfim daqueles que se empenham na implantação de uma ordem econômica, social, política, cultural e territorial mais justa (GS 9 ab).

A ação missionária deve influenciar a construção de um tecido social pautado na garantia da vida, na prática da justiça, na esperança e na alegria, que nascem da fé e do discipulado, e que penetra a totalidade da vida. Finalmente, o que mais contribui para manifestar a presença de Deus é “a caridade fraterna dos fiéis que unanimemente colaboram com a fé do Evangelho e se apresentam como sinal de unidade” (GS 21e).

 

2.7. Povo chamado a ser sujeito de transformação social

O serviço de caridade caracteriza de maneira decisiva a vida cristã, o estilo eclesial e a programação pastoral, pois, do encontro com Cristo, nasce o encontro do outro. Uma das conseqüências do encontro com Cristo, pelo anúncio da boa nova, é a mudança das relações sociais e do meio ambiente em que cada batizado se encontra. O discípulo-missionário não se deixa escravizar pelas diferentes formas de consumismo individualista e de paternalismo, mas procura manifestar, em opções e gestos concretos de doação, sua opção pelo Reino de Deus.

Da fé em Cristo, brota a “solidariedade como atitude permanente de encontro, irmandade e serviço [...], principalmente na defesa da vida e dos direitos dos mais vulneráveis e excluídos, e no permanente acompanhamento em seus esforços por serem sujeitos de mudança e de transformação de sua situação” (DAp 394).

Iluminados e fortalecidos pela fé, os membros da comunidade entendem a necessidade de dedicar “tempo aos pobres, prestar-lhes uma amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de nossas vidas e, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (DAp 397).

 

3. Missão permanente e conversão pastoral

Nossa Igreja em São Paulo quer ser também sempre mais missionária, conforme o apelo da Conferência de Aparecida. Viver em processo de conversão ao Reino de Deus é condição imprescindível para que o processo missionário tenha vitalidade permanente.

Voltada para o Senhor, a Igreja em São Paulo entende que é preciso:

1. Colocar em primeiro lugar os valores do Reino de Deus e sua justiça. 

2. Alimentar a fidelidade ao Mestre e torná-la visível em expressões concretas do amor, diálogo, abertura, disponibilidade, participação, perdão, cuidado.

3. Nutrir a espiritualidade da comunhão, à luz das primeiras comunidades cristãs.

4. Testemunhar a santidade e a comunhão eclesial (DAp 370).

5. Buscar na Palavra, na Eucaristia, na comunhão eclesial, nas razões da fé recebida na Igreja, no culto, na liturgia, na oração pessoal e comunitária, nas práticas de caridade e solidariedade, e na formação de uma consciência orientada pela ética da vida e do Espírito o alimento do discipulado e da missionaridade.

6. Desenvolver a inventividade e elaborar propostas concretas e adequadas para responder pastoralmente às mudanças sociais, culturais e religiosas de nosso tempo em nossa cidade.

7. Estimular para a missão, pela formação e valorização dos sujeitos da pastoral.

8. Realizar uma pastoral de conjunto.

A conversão pastoral tem como fundamento a unidade e a partilha em torno de Cristo Mestre e Pastor. O Espírito Santo nos fala também pelos sinais dos tempos e sua voz nos oferece a matéria-prima da missão. Esta conversão pastoral precisa tornar-se conversão missionária, em atitude de busca e acolhida dos irmãos distantes da fé.

 

3.1. O encontro pessoal com Cristo, fonte de missão e conversão pastoral

Sem o encontro com o Senhor, não existe conversão. Sem conversão, não existe discípulo, discípula, missionário, missionária. “Quando o discípulo está enamorado de Cristo, não pode deixar de anunciar ao mundo que só ele nos salva (cf. At 4,12). Com efeito, o discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (Bento XVI, Discurso inaugural da V Conferência em Aparecida).

O discípulo-missionário não nasce da leitura de um livro e nem de uma decisão ética. Nasce “do encontro com um acontecimento, uma pessoa, que dá um novo horizonte à vida, e, com isso, uma orientação decisiva” (DCE 12). O encontro com o Ressuscitado conduz às dimensões profundas de nossa realidade e de nossa identidade de cristãos. “O acontecimento de Cristo é, portanto, o início desse sujeito novo que surge na história, a quem chamamos discípulo” (DCE 1). Pela força desse acontecimento, a comunidade eclesial revigora sua vocação missionária de anunciar e testemunhar o Senhor Ressuscitado, com renovado ardor e entusiasmo (cf. DAp 243).

Somente no encontro com o Senhor é que bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e leigos descortinam sua identidade de discípulos-missionários, descobrem a razão mais profunda de sua fé, esperança e caridade. Quem encontra Jesus e se torna seu discípulo, muda de vida e se deixa guiar pela Palavra de Deus. A força restauradora desse encontro abre os olhos do discípulo-missionário, a fim de que possa compreender que anunciar Jesus Cristo e torná-lo conhecido e amado é a razão de ser da vida do cristão. A maior felicidade e alegria do discípulo é amar o Senhor ressuscitado, seguir os seus ensinamentos e testemunhar sua Palavra.

O encontro com Jesus se realiza na fé recebida e vivida na Igreja. Ele se alimenta e se renova no contato profundo e íntimo com a Palavra de Deus, na sagrada liturgia, na participação eucarística, de modo privilegiado, e na partilha em comunidade. O discípulo se forma e se sustenta pelo Pão da Palavra e da Eucaristia, que a Igreja lhe oferece. Um bom roteiro para entender essa realidade encontramos nos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35). “Quando se sentam à mesa e recebem de Jesus o pão abençoado e partido, seus olhos se abrem, descobrem o rosto do Ressuscitado, sentem em seu coração que é verdade tudo o que ele disse e fez, e que já começou a redenção do mundo” (Bento XVI, Discurso inaugural da V Conferência em Aparecida).

A intimidade com Jesus precisa ser alimentada no dia-a-dia, por meio do estudo, da leitura e da meditação da Palavra de Deus, do conhecimento da doutrina cristã, da oração pessoal e comunitária, da participação nos sacramentos, da ação missionária e da presença amorosa junto aos mais pobres e sofredores.

 

3.2. Compromisso com uma pastoral de conjunto, em comunhão e participação

Este Plano de Pastoral deseja expressar o compromisso da Arquidiocese de São Paulo com a pastoral de conjunto e animar todos os discípulos missionários a viverem a comunhão e a participação. Desse modo, poderemos responder às exigências pastorais da cidade. Para isso, é necessário contar com o envolvimento de todos os sujeitos da pastoral.

O princípio norteador da pastoral de conjunto é a espiritualidade de comunhão e participação. Esta deve permear a formação e a vida dos sacerdotes e diáconos, das pessoas consagradas, dos agentes pastorais, das famílias e comunidades (cf. DAp 368). Os “leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução” (ChL 51; DAp 371).

Atitudes pastorais de abertura,  diálogo, disponibilidade, co-responsabilidade e participação de todos na vida da comunidade são exigências de uma pastoral do testemunho de comunhão eclesial e de santidade, inspirada no mandamento novo do amor.

Todos os fiéis são iguais em dignidade e cooperam na construção do Corpo de Cristo, em espírito de comunhão e participação, por meio dos diferentes dons e serviços, colocados à disposição do povo de Deus. A cada um “foi dada a graça, pela medida do dom de Cristo, para aperfeiçoamento dos cristãos, e o trabalho na obra da construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus” (cf. Ef  4,7.13).

 

3.3. Renovação das estruturas eclesiais, a serviço da missão

A Igreja só cumprirá sua missão se o eixo organizador de todas as ações pastorais for o espírito missionário. Por isso, uma firme “decisão missionária” deve impregnar e impulsionar as paróquias, comunidades, movimentos, associações, pastorais, enfim, toda a vida da Arquidiocese.

“Nenhuma comunidade deve se isentar de entrar decididamente, com todas suas forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DAp 365). Cada comunidade deverá descobrir como ser mais missionária no lugar onde está situada.

A renovação missionária das paróquias exige de todos imaginação e criatividade para chegar às multidões que desejam o Evangelho  É, portanto, urgente a renovação de estruturas pastorais que nasceram em outras épocas para responder às necessidades da cultura rural (cf. DAp 173).

 

3.4. Plano de pastoral, resposta missionária aos apelos de Deus no cotidiano

Este Plano de Pastoral é um momento oportuno para que todas as paróquias da Arquidiocese se tornem missionárias. Ele deve ser uma resposta consciente e eficaz para atender às exigências da realidade urbana, com “indicações programáticas concretas, objetivos e métodos de trabalho, de formação e valorização dos agentes e da procura dos meios necessários que permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas, modele as comunidades e incida profundamente na sociedade e na cultura, mediante o testemunho dos valores evangélicos” (NMI 29).

Para que os moradores de nossa cidade possam encontrar em Cristo a plenitude de vida, é urgente que os agentes de pastoral, como verdadeiros discípulos-missionários, se esforcem para desenvolver um estilo pastoral adequado à realidade urbana, atentos à linguagem, às estruturas e práticas pastorais e aos horários (cf. DAp 518a). Por meio do exercício cotidiano da fraternidade e da comunhão, que cada um se empenhe para colocar à disposição dos demais os dons e talentos que recebeu do Espírito, para que cresça a unidade do único Corpo de Cristo, entregue para a vida do mundo.

É igualmente importante que estejam presentes nos centros de decisão da cidade, nas estruturas administrativas, nas organizações comunitárias, profissionais e de todo tipo de associação, para zelar pelo bem comum e promover os valores do Reino. Para isso contribui um processo de iniciação cristã e formação permanente que alimente a fé, de modo a integrar o conhecimento, o sentimento e a ação.


3.5. De uma pastoral de manutenção para uma pastoral missionária

O paradigma para a transformação de uma pastoral de manutenção em uma pastoral decididamente missionária está nas primeiras comunidades, que buscaram evangelizar de acordo com as culturas e circunstâncias. Para que isso aconteça, é necessário recuperar a força da missão de Jesus. Os Atos dos Apóstolos nos transmitem essa força pelo caminhar da Palavra, pela fundação de novas comunidades e pelo ardor dos primeiros discípulos, que enfrentavam todos os obstáculos da missão. Esta força foi gerada pelo contato íntimo dos discípulos com Jesus.

 

“A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que ‘o único programa do Evangelho siga introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial’, com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como uma mãe que nos sai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária” (DAp 370).

 

3.6. Utilização das novas tecnologias e linguagens

Na realidade atual, em que as novas linguagens midiáticas são um elemento articulador das mudanças sociais, culturais e religiosas, “a catequese ou o posterior aprofundamento da fé não podem prescindir desses meios” (DAp 485). Os meios de comunicação, como a Internet, podem oferecer magníficas oportunidades de evangelização, embora não substituam as relações pessoais e nem a vida comunitária.

 

“Colocados a serviço do Evangelho, eles oferecem a possibilidade de difundir quase sem limites o campo de audição da Palavra de Deus, fazendo chegar a Boa Nova a milhões de pessoas. A Igreja se sentiria culpada diante de Deus se não empregasse esses poderosos meios, que a inteligência humana aperfeiçoa cada vez mais. Com eles, a Igreja proclama a partir dos telhados a mensagem de que é depositária. Neles, encontra uma versão moderna e eficaz do ‘púlpito’. Graças a eles, pode falar às multidões” (EN 45).

 

Esta é uma oportunidade excelente para evangelizar também por meio da inclusão digital, nas paróquias, comunidades, centros culturais e instituições educacionais católicas, de desenvolver iniciativas e de aproveitar revistas, jornais, sites, portais e serviços on-line de conteúdos informativos e formativos, além de oferecer orientações religiosas e sociais diversas, cursos de teologia e cultura bíblica a distância.

 

3.7. Compromisso com o saneamento básico e a preservação da natureza

O meio ambiente é o espaço precioso da convivência humana e seu cuidado é nossa responsabilidade. É um dom do Criador, para o bem de todos. Atualmente, este patrimônio parece frágil e indefeso diante da pressão dos poderes econômicos e tecnológicos.

A Arquidiocese de São Paulo preocupa-se, portanto, com a defesa dos recursos naturais, muitas vezes submetidos aos interesses de grupos econômicos que arrasam irracionalmente as fontes de vida (cf. DAp 471). O pouco verde em muitas áreas da cidade e a degradação ambiental decorrente da falta de tratamento dos esgotos comprometem a vida do povo.  Em espírito de gratidão ao Criador e de responsabilidade social e evangélica, convida a todos para cuidarem, com o carinho que o próprio Cristo demonstrou pela natureza, dos recursos naturais que servem ao povo de nossa cidade, especialmente no que diz respeito ao uso do solo, da terra, da água e dos espaços urbanos (cf. DAp 470).

É importante buscar “formas de desenvolvimento alternativo, integral e solidário, baseado numa ética de responsabilidade por uma autêntica ecologia natural e humana, que se fundamente no evangelho da justiça, da solidariedade e do destino universal dos bens, e que supere a lógica utilitarista e individualista, que não submete os poderes econômicos e tecnológicos a critérios éticos” (DAp 474,c).

 

4. Dimensões da missão dos discípulos

Nossa prática eclesial e a ação pastoral devem traduzir e integrar harmonicamente as quatro dimensões seguintes: serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão. Estas repercutem no indivíduo, na comunidade e na sociedade.

 

4.1. Serviço (pessoa, comunidade, sociedade)

“O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de tudo para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, e isso em todos os níveis” (DCE 20). Aderir à pessoa de Jesus significa viver a opção pelos pobres, promover a dignidade humana e construir uma sociedade justa e solidária. Como o Senhor, os discípulos-missionários sentem-se chamados ao serviço aos mais necessitados. Para a Igreja em São Paulo, a solidariedade é uma exigência inseparável da fé, uma das colunas de sua identidade, à qual não pode renunciar.

Identificada com “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem” (GS 1), a Arquidiocese coloca-se a serviço da construção do Reino de Deus e de sua justiça na cidade.

A vivência da comunhão eclesial deve nos levar a viver a caridade no meio da sociedade: “Partindo da comunhão dentro da Igreja, a caridade abre-se, por sua natureza, ao serviço universal, frutificando no compromisso de um amor ativo e concreto a cada ser humano” (NMI 49).A solidariedade não é compromisso exclusivo das pastorais sociais e sim de toda a Igreja. Deve começar no seu próprio interior, pela partilha de recursos materiais e humanos.

O conhecimento da doutrina social da Igreja incentiva a prática da solidariedade e reforça a consciência da cidadania, assim como as celebrações nos grandes momentos da vida do povo. A presença ativa dos leigos na luta contra as desigualdades econômicas e sociais que dificultam a vivência dos valores verdadeiramente humanos é uma forma de testemunhar a ação transformadora da Igreja na cidade.

 

4.2. Anúncio (pessoa, comunidade, sociedade)

O anúncio da Palavra de Deus está na raiz do crescimento da Igreja. Narram os Atos que a Palavra do Senhor divulgava-se por toda a região, crescia e se confirmava poderosamente (cf. At 13,49; 19,20). O próprio Jesus enviou seus discípulos como anunciadores da Boa Nova do Reino de Deus: “Ide, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28, 19-20a). Do mesmo modo, o Apóstolo Paulo “conjura” Timóteo, “diante de Deus e de Cristo Jesus” (2Tm 4,1-2), a proclamar a Palavra, a insistir, “no tempo oportuno e inoportuno”, com toda paciência e doutrina: “Faze o trabalho de um evangelista, realiza plenamente o teu ministério” (2Tm 4,5).

A Palavra que anunciamos “é viva, eficaz e mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12), é uma verdadeira luz que dá sabedoria aos simples (Sl 119[118], 130). Como nos ensina o Senhor, “não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). E cremos que é o próprio Cristo quem nos fala, “quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7).

Temos de alimentar, entre nós católicos, uma “cultura missionária”, que permeie as celebrações, as pregações, as comunicações, a preparação aos sacramentos, a formação dos sacerdotes, dos agentes de pastoral e dos fiéis. A comunidade deve criar o hábito das missões populares permanentes, que se espelham na prática de Jesus.

Essa atitude se apóia na “cultura da Palavra”, no hábito de ler, meditar, assimilar e proclamar a Palavra como fonte de sentido para nossa experiência de fé no cotidiano. Assim como somos Igreja dos sacramentos, devemos ser Igreja da Palavra de Deus. A comunidade verdadeiramente evangelizadora alimenta-se da Palavra de Deus, acolhe a todos e vai ao encontro de todos, para anunciar a pessoa de Jesus Cristo.

 

4.3. Diálogo (pessoa, comunidade, sociedade)

As conversas de Jesus com Natanael e outros discípulos (cf. Jo 1,47-51 e 20,26-29; Mt 13,10-17; Mc 9,2-13), com os judeus (cf. Jo 2,18-20), a samaritana (cf. Jo 4,7-26), Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42), com Simão fariseu e a pecadora (cf. Lc 7,39-50), com os guardas que o prenderam (cf. Jo 18,4-11), com Pilatos (cf. Jo 18,33-38), e sua longa conversação com os discípulos e com o Pai (cf. Jo 13-16), são alguns exemplos extraídos de sua prática dialogal. Além de saber ouvir e perguntar, Jesus usa linguagem simples e direta, encarnada no cotidiano, para falar do Reino de Deus e convidar à mudança de vida.

Por meio do diálogo, podemos apresentar as razões de nossa esperança e de nossa fé em Cristo, de nossa dedicação aos pobres e excluídos. A abertura ao diálogo ajuda a despertar e a criar elos de amizade e fraternidade, restaura a unidade, estabelece o relacionamento.

A sociedade moderna acentua o pluralismo e a necessidade de respeito ao outro (CNBB Doc. 71, 86). Por isso, é preciso educar para um diálogo integral, orientado ao conhecimento, à escuta, à compreensão dos valores de cada um. O diálogo extensivo às outras Igrejas cristãs e a outras religiões supõe uma preparação segundo as orientações do Diretório Ecumênico. Como o Mestre, precisamos abrir-nos ao diálogo com todos, bem como despir-nos de preconceitos.

           

4.4. Testemunho de comunhão (pessoa, comunidade, sociedade)

A comunhão se consolida e se manifesta pelo diálogo, intercâmbio e partilha fraterna entre Regiões Episcopais, paróquias, comunidades, pastorais, movimentos e associações. Na paróquia, “comunidade de comunidades e movimentos” (SD 58), como sujeito da evangelização e promotor de comunhão, os batizados têm direito à Palavra de Deus, aos sacramentos, à assistência espiritual e às orientações da Igreja, bem como a participar dos espaços de comunhão e ação pastoral.

A comunhão é ainda mais visível com uma rede de comunidades menores, iluminadas pelas experiências de convivência, solidariedade, bem como de comunhão e participação (cf. DP III). Esta orientação supõe a interação entre fé e vida (cf. CNBB Doc. 61, 97) como uma das maneiras de testemunhar o amor de Cristo em nossas vidas.

Na celebração litúrgica, a comunhão ganha maior visibilidade. A comunidade convocada e reunida pelo Espírito Santo, para louvar o Senhor, alimentar a fé e celebrar a vida,  é uma verdadeira “epifania” da Igreja, uma reunião de irmãos e um corpo orgânico com funções distintas.  A liturgia não é simplesmente a execução de ritos, mas a celebração do mistério da salvação. Pela liturgia, a comunidade celebra a comunhão, manifesta sua fé, esperança e caridade, bem como recebe força e graça para a missão.

É preciso despertar uma espiritualidade de comunhão, alimentada pela celebração eucarística, uma vez que “a eucaristia cria comunhão e educa para a comunhão” (EE, 40). A comunhão se testemunha pela celebração participativa, que pressupõe “[...] as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações e os gestos e o porte do corpo” (SC 30).  A assembléia deve estar aberta aos ausentes e procurar agregar novos membros pelo batismo. 

Exaltar a grandeza do Senhor por meio de exercícios piedosos, orações comunitárias e individuais, e outras práticas devocionais, gera e alimenta em cada membro da comunidade o encantamento pela comunhão eclesial. Este testemunho se constrói no dia-a-dia e deve ser continuamente alimentado.

 

Perguntas norteadoras para o Julgar

 

1. Jesus Cristo e o Evangelho do Reino de Deus, por ele anunciado, devem ser a referência constante para a vida e a ação pastoral da nossa Igreja em São Paulo. Como conseguir que isso aconteça nas nossas comunidades e com todos os agentes de pastoral?

2. A Igreja não é uma ONG, um partido político e nem um movimento social. O que deve, então, caracterizar a vida dos católicos, das comunidades e de todas as nossas organizações eclesiais em São Paulo?

3. A Conferência de Aparecida pede que nossa Igreja, com todas as suas pessoas e organizações, faça uma verdadeira “conversão pastoral”, para passar da mera “conservação” a uma atitude verdadeiramente missionária. O que significa isso e como levar isso à prática?

4. Na sua Paróquia, comunidade, grupo, pastoral, movimento, escola, comunidade religiosa, seminário, algo pode ou deve ser feito para sermos realmente uma Igreja missionária na cidade de São Paulo? O quê, por exemplo?

 

 


 

III. DISCÍPULOS EM MISSÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO (Agir)

 

            Este Plano de Pastoral comunga com o Projeto Nacional de Evangelização – O Brasil na Missão Continental: que visa unir, na fé e no ardor missionário, os povos latino-americanos e caribenhos. “A grande intuição é ativar a energia, o potencial da pessoa que fez a experiência do fascínio do encontro com Jesus e, ao mesmo tempo, oportunizar este encontro para aqueles que ainda não o fizeram.”

A Arquidiocese de São Paulo, como sujeito da missão, à luz do Documento de Aparecida e das DGAE 2008-2010, compromete-se com a ação evangelizadora como serviço eclesial à cidade de São Paulo. Nesse sentido, deseja animar a missão arquidiocesana e participar de um trabalho missionário conjunto com as dioceses do Regional Sul 1, que apresenta o PAMP como Projeto de Ação Missionária Permanente.

Em continuidade com o Plano anterior, o 10º. Plano de Pastoral da Arquidiocese reafirma o caráter missionário da Igreja e propõe cinco aspectos indispensáveis à formação do discípulo-missionário: o encontro com Jesus, a conversão, o discipulado, a comunhão e a missão.  

 

 

1. A missão dos discípulos e discípulas, segundo o tríplice múnus de Jesus Cristo

A missão, acima de tudo, é encontrar as pessoas, ajudá-las a encontrar Jesus Cristo e, por meio dele, achar o caminho, a verdade e a vida. A ação missionária significa uma intervenção na realidade. É a comunidade trabalhando, movida pelo Espírito Santo. A metodologia da ação eclesial deve inspirar-se no exemplo e na prática de Jesus. Como discípulos-missionários, buscamos conhecer a realidade para transformá-la à luz do Evangelho e das orientações da Igreja.  

 

1.1. Celebrar a vida na comunidade e na cidade (missão sacerdotal)

A vida litúrgica (missão sacerdotal) tem por objetivo celebrar e santificar a vida das pessoas na comunidade e na cidade. A liturgia é “o cume para o qual tende toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força. Pois os trabalhos apostólicos se ordenam a isso: que todos, feitos pela fé e pelo batismo filhos de Deus, juntos se reúnam, louvem a Deus no meio da Igreja, participem do sacrifício e comam a ceia do Senhor” (SC 10). Na liturgia, “o discípulo realiza o mais íntimo encontro com o Senhor e, dela, recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo” (DGAE 67).

A todos aqueles que se unem intimamente à sua vida  e missão, o Senhor concede participar de seu múnus sacerdotal, para que Deus seja glorificado. Pelo sacerdócio comum, os leigos, como adoradores agindo santamente em toda parte, consagram a Deus o próprio mundo. Assim, todas as suas obras são ofertas “agradáveis a Deus” (1Pd 2,5), suas preces, iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar, trabalho, cotidiano, descanso, praticados no Espírito, e mesmo os sofrimentos suportados com serenidade (cf. LG 34b).

 

Como estão as celebrações da liturgia em nossas paróquias e comunidades? Como está a presença e a participação do povo?

 

A. Pistas para a ação

 

1º. Com atenção à pessoa. A prática de Jesus nos mostra sua preocupação em ir ao encontro da pessoa e lhe dar uma atenção particular. No Evangelho, encontramos também pessoas que buscam em Jesus cura, esperança, força, orientação, um sentido para a vida. Neste sentido, este Plano propõe: valorizar a confissão sacramental, com horários adequados para atender o povo; motivar e formar para a vida sacramental, de santidade e eclesial; estimular a participação ativa nas celebrações, especialmente no Domingo; e orientar para uma vida de oração, com a oferta a Deus das alegrias, sofrimentos, esperanças e decepções de cada dia.

 

2º. Com atenção à comunidade. Jesus deu especial atenção à formação da comunidade dos apóstolos e discípulos para a oração, a escuta e assimilação da Palavra de Deus e a celebração do seu Sacrifício. É expectativa deste Plano que, iluminada pelo exemplo e pela prática de Jesus, a comunidade concretize a pastoral litúrgica, de modo a envolver todas as pessoas, grupos, pastorais e movimentos. Para isso, considera importante: preparar e celebrar todos os sacramentos com a participação da comunidade, em espírito de acolhimento, a exemplo do RICA; organizar momentos de oração comunitária no espírito e metodologia da leitura orante da Bíblia; realizar retiros e encontros de espiritualidade e oração; celebrar diariamente a Eucaristia nas paróquias e, sempre que possível, nas comunidades; envolver mais os homens e os jovens na liturgia; valorizar a liturgia na vida das famílias; motivar a participação da comunidade em momentos fortes do bairro e da cidade, com abertura para o ecumenismo; valorizar as exéquias e as Novenas de Natal; celebrar nos círculos bíblicos, grupos de rua e prédios; manter as igrejas abertas todos os dias, com acolhida e momentos de evangelização; capacitar pessoas para atendimento espiritual; adequar os horários de atendimento e de celebrações ao público, sobretudo à noite; valorizar a piedade e a religiosidade popular; dar ênfase à dimensão catequética da liturgia. 

 

3º. Com atenção à sociedade. Este Plano propõe: preparar celebrações litúrgicas que unam a fé e a vida; considerar os espaços de trabalho, moradia, saúde, educação e lazer, e trazer a realidade do povo, da cidade, do país e do mundo para as celebrações.

 

B. Destaques

 

a. O Domingo, dia do Senhor. Estimular o povo a participar da missa dominical. Esclarecer à comunidade o sentido e a importância do Dia do Senhor e dos meios para santificá-lo. Buscar inspiração na Carta Apostólica Dies Domini e na Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, ambas de João Paulo II.

b. Celebração dominical da Palavra de Deus. Esclarecer a comunidade sobre o sentido e a importância da Celebração da Palavra dirigida por ministros leigos, em situações que não contam com a presença de ministros ordenados.

c. Aprofundamento da doutrina sobre a Eucaristia. Utilizar materiais de reflexão, espiritualidade e orientação litúrgica, como os documentos pontifícios, os da CNBB, o Catecismo da Igreja Católica e outros.

d. Pastoral dominical. Repensar as estruturas das paróquias e comunidades, para que no domingo sejam oferecidos serviços de atendimento aos fiéis. As paróquias e também as secretarias devem permanecer abertas, além do horário das Missas, para que as pessoas possam fazer suas orações pessoais, tirar dúvidas, retirar documentos necessários para o recebimento dos sacramentos. Despertar a comunidade para o voluntariado que colaborará com os atendimentos dominicais.

e.  Homilias, Deus fala à comunidade. Apresentar a Palavra de Deus com empenho e sabedoria, mantendo a relação com a vida da comunidade e da cidade, para que “o coração de cada ouvinte arda ao ouvir o Senhor” (cf. Lucas 24,13-35).

f.  Habilidade comunicativa dos ministros ordenados e não-ordenados.  Capacitar os ministros para terem uma linguagem adequada à realidade, postura e conteúdo, ou seja, o que falam deve ter bom conteúdo e ser apresentado em linguagem clara, e com a postura adequada.

g.  Observação das normas litúrgicas da Igreja e das orientações do Diretório Litúrgico da CNBB. Estudo e prática do Diretório dos Sacramentos da Arquidiocese.

 

1.2. Anunciar a Palavra de Deus e formar discípulos (missão profética)

O ministério da Palavra (missão profética) tem por objetivo anunciar a Palavra de Deus e formar discípulos-missionários. Os batizados participam da missão profética de Cristo (LG 35). Em tudo, devem anunciar o Senhor e sua Palavra (Is 62,1). A missão profética tem um modo próprio de ser e uma eficácia particular, pelo fato de ser desempenhada nas tarefas e condições habituais da vida. É um meio de penetrar com a força transformadora da Palavra de Deus em todos os momentos da vida das pessoas e em todos os ambientes.

 

A. Pistas para a ação

 

1º. Com atenção à pessoa. A prática de Jesus nos mostra sua preocupação em anunciar o Reino de Deus às pessoas e não apenas às multidões. Recorde-se aqui sua atenção à samaritana, a Zaqueu e a Nicodemos, entre outras pessoas. Para elas, anunciou particularmente a Palavra de Vida. Esta atitude de Jesus nos impele a anunciar pessoalmente a Palavra de Deus ao doente, ao encarcerado, sofredor, jovem, homem, mulher, criança. É importante ajudar a pessoa a criar o hábito da leitura diária da Bíblia e preparar membros da comunidade que possam colaborar com o sacerdote nessa missão.

 

2º. Com atenção à comunidade. Jesus dirigia sua Palavra à comunidade reunida, falava a linguagem do seu povo, utilizava símbolos retirados do cotidiano (semente, água, videira, pedra, joio, jóia, etc.), para se fazer compreender. Anunciava de forma concreta a mensagem do Evangelho, porque vivia próximo ao povo, entendia e participava de suas aflições e esperanças. Em Cristo, a pregação realizava a união entre a Palavra de Deus e a vida. No seguimento de Jesus, este Plano recorda a importância de linguagem simples, clara e objetiva para evangelizar. Propõe a proclamação da Palavra de Deus em todos os momentos da vida da comunidade: nascimentos, celebrações, velórios, preparação e administração dos sacramentos, festas e comemorações. A comunidade deve também motivar para a leitura e o estudo da Bíblia em comum, organizar cursos bíblicos, utilizar a leitura orante da Bíblia; investir nas Escolas da Palavra e motivar a participação em cursos de teologia para leigos, promovidos pelas Regiões Episcopais ou pela Arquidiocese.

 

3º. Com atenção à sociedade. Jesus andava de cidade em cidade, dialogava com as autoridades de seu tempo, sacerdotes, escribas, doutores da lei, e procurava conduzi-los à mudança de vida e das normas sociais. A comunidade cristã deve também ser fermento de uma nova sociedade. Contribuem nesse sentido:

  1. As ações litúrgicas, que unem a fé e a vida, que consideram os espaços de trabalho, moradia, saúde, educação e lazer, e trazem a realidade para as celebrações (epidemias, violência, fome, dia do bairro, festas, dias cívicos etc.).

  2. As visitas missionárias permanentes às famílias, prédios, escolas, fábricas, hospitais, prisões, unidades de internação, albergues, abrigos, fundações.

  3. O testemunho cristão nos espaços de trabalho, moradia e lazer.

  4. A presença atuante dos católicos nas atividades técnicas e profissionais, orientados pela competência.

  5. A formação de grupos de reflexão e revisão de vida, a partir dos ambientes de trabalho, tendo em vista a evangelização no Mundo do Trabalho. “O trabalho é uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social” (LE 3).

  6. Jesus utilizava todos os meios de comunicação de sua época. Também nós, como Igreja, nos propomos a: estar presentes e assumir, com mais empenho, os MCS como instrumentos da ação evangelizadora, pois eles são um diferencial alternativo e inteligente ao fundamentalismo religioso e ao consumismo; valorizar e apoiar os meios de comunicação da Arquidiocese, com atenção especial ao jornal O São Paulo, à Rádio 9 de julho, ao site da Arquidiocese e ao folheto Povo de Deus; estimular a capacidade crítica, diante da manipulação da opinião pública pela mídia; promover iniciativas pela democratização da informação; utilizar os recursos da Internet e prevenir contra seu mau uso;  investir na formação de comunicadores; incentivar e animar a Pastoral da Comunicação (PASCOM),  nas várias instâncias da Arquidiocese (cf. DGAE 206).

 

B. Destaques

a.  Ministério da Palavra. Preparar para a proclamação da Palavra por meio de cursos e uso de subsídios e roteiros homiléticos.

b.  Incentivar o dia semanal da Palavra de Deus nas paróquias e comunidades. Realizar celebrações, círculos bíblicos, estudos da Palavra, grupos de rua e de prédio.

c.  Atender à piedade e à religiosidade popular. Incentivar a oração do Rosário, a devoção Mariana, celebrar a festa do padroeiro, dos santos populares, animar as peregrinações e a oração individual.

d. Realizar campanhas nas paróquias e comunidades para que todos os católicos tenham a Bíblia.

e.  Acolher e estudar as orientações do Sínodo sobre a Palavra de Deus.

f.  Evangelizar nos círculos bíblicos, grupos de rua e prédios. Incentivar o funcionamento contínuo dos grupos e divulgar suas ações.

g.  Iluminar as orientações catequéticas com a Palavra de Deus. Apresentar Jesus Cristo como centro da vida cristã.

h.  Acentuar nos catequizandos o conhecimento da vocação batismal, que é missionária.

i. Assumir o Diretório Nacional de Catequese. Adaptar para a realidade da cidade o itinerário catequético permanente (Documento nº. 84 da CNBB).

 

1.3. Servir pela prática da caridade (missão pastoral)

Cristo, Rei e Pastor da humanidade, se fez servidor de todos. Os batizados participam da missão régia de Cristo. Reinar é servir a Cristo, principalmente nos pobres e nos sofredores, é fazer crescer o Reino de Deus no mundo. 

É por meio dos cristãos, especialmente dos leigos, que os serviços eclesiais penetram no dia-a-dia da sociedade, na convicção de que as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

 

A. Pistas para a ação

 

1º. Com atenção à pessoa. Jesus veio para servir e não para ser servido. Nossa vocação cristã de discípulos-missionários nos recorda que devemos incentivar a todos para a prática constante da caridade pessoal e das obras de misericórdia: acolher e orientar as pessoas, com delicadeza e caridade; dar atenção às suas necessidades básicas de saúde, trabalho, educação, moradia, alimentação; atuar na área da educação: alfabetização de adultos, preparação para o vestibular como faz o Educafro, reforço escolar, cursos profissionalizantes; formar para a capacidade crítica; oferecer serviços de terapia e aconselhamento.

 

2º. Com atenção à comunidade. Na comunidade servidora, em nome do Senhor, todos são convocados a promover, à luz da opção pelos pobres, o serviço da caridade e da solidariedade, nas dimensões da assistência social, da promoção humana e da transformação da sociedade. Na comunidade, é necessário educar para o relacionamento solidário e fraterno; valorizar e defender a família; atender à população carente e aos núcleos de convivência, tais como albergues, pensões e cortiços; oferecer atendimento de profissionais: médicos, dentistas, psicólogos, advogados e outros; manter centros de referência para a terceira idade, balcão de empregos, esportes, projetos de música comunitária, biblioteca comunitária, capoeira, creches e centros de juventude.

 

3º. Com atenção à sociedade. Servir a sociedade, a exemplo do Mestre, significa qualificar para o trabalho social e político; conhecer e estudar as cartilhas “O que é Pastoral Social?” e “A Missão da Pastoral Social”, da Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB; realizar cursos para conhecer e aprofundar a Doutrina Social da Igreja; formar para a cidadania e participar na sensibilização, mobilização e lutas em favor da cidadania: Grito dos Excluídos; 1º de Maio; Romaria da Terra e da Água; Via-Sacra da Criança e do Adolescente; Dia Nacional da Juventude; Dia Internacional da Mulher; Dia do Migrante; Dia da Consciência Negra; Natal dos Sonhos, entre outros; formar para a Pastoral Fé e Política; despertar, incentivar e organizar o trabalho voluntário. Quanto às pastorais sociais, é importante animar e investir na pastoral social em cada paróquia e comunidade, bem como articular os trabalhos sociais das paróquias, comunidades, entidades, escolas, universidades, hospitais etc., e envolvê-los numa ação conjunta; fortalecer o Fórum das Pastorais Sociais nos vários níveis da organização da Arquidiocese; participar de conferências, comitês, comissões, conselhos e outras instâncias democráticas, fazendo-se presente nos processos decisórios e de controle social da sociedade; envolver-se na elaboração e concretização de políticas públicas e monitoramento das ações do Estado; realizar a Semana Social ou de Fé e Compromisso Social nas várias instâncias da Arquidiocese; assumir as Campanhas da Fraternidade como instrumento da evangelização. Espera-se das comunidades a defesa do meio ambiente; o apoio a criação de um Conselho Municipal de Segurança Alimentar; o incentivo às cooperativas formadas pela população de rua, à economia solidária e a projetos de geração de renda. Conhecer e buscar apoio da Cáritas Arquidiocesana e a das Regiões Episcopais.

 

B. Destaques

O Documento de Aparecida convoca-nos a contemplar, nos rostos sofredores de nossos irmãos, o rosto de Cristo e a servi-lo neles. “De nossa fé em Cristo nasce também à solidariedade como atitude permanente de encontro, irmandade e serviço” (DAp 393-394). Na concretização deste Plano de Pastoral, queremos dar atenção aos migrantes e imigrantes; moradores de rua; doentes e enfermos; dependentes químicos; detidos e egressos do sistema prisional; crianças, adolescentes e jovens; populações indígenas; e desempregados (DAp 407-430). “Eles desafiam o núcleo do trabalho da Igreja, da pastoral e de nossas atitudes cristãs” (DAp 394).

 

a. Serviço aos migrantes e imigrantes. A cidade de  São Paulo é constituída por pessoas vindas dos Estados do Norte e Nordeste do Brasil, por causas econômicas, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Encontram-se entre os imigrantes pessoas provenientes do Japão, Bolívia, Vietnã, China, Argentina, Chile, Itália e outros países.  Na cidade grande, nem sempre a linguagem religiosa dessa população é levada em conta, o que acaba sufocando expressões legítimas e familiares da fé aprendidas da comunidade de origem. Nesse sentido, é de grande importância: criar meios e utilizar espaços que facilitem o encontro do migrante e do imigrante com a Igreja em São Paulo; promover sua acolhida, rompendo com os preconceitos e discriminação social; oferecer orientações às paróquias e comunidades, com o apoio do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM); partilhar a experiência das capelanias e paróquias pessoais: Paróquia Nossa Senhora da Paz (Glicério), Paróquia Santa Rita (Pari), Paróquia São João Batista (Brás), Paróquia Santo Antônio (Pari), paróquias dos alemães, coreanos, lituanos, ucranianos etc.; visitar as famílias e dar atenção às suas necessidades; motivar migrantes e imigrantes católicos a formarem suas comunidades locais, podendo utilizar os espaços das  paróquias e comunidades, e integrá-los na vida da comunidade; promover celebrações interculturais da missa, com imigrantes de diferentes origens; programar celebrações em espanhol nos bairros onde existem imigrantes latino-americanos; oferecer atendimento espiritual e sacramental; atender à religiosidade popular e às devoções dos vários grupos étnicos; capacitar agentes para o acompanhamento dos imigrantes e migrantes; valorizar as culturas desses grupos em vários momentos da comunidade: missas, festas, celebrações e catequese, resgatando a expressão popular e conhecendo suas raízes; estudar a criação do Vicariato da Mobilidade Humana; divulgar e celebrar nas paróquias e comunidades a Semana do Migrante (3ª semana de junho), o Dia Nacional do Migrante (25 de junho), e o Dia Internacional do Migrante (18 de dezembro); colaborar com a Cáritas Arquidiocesana no trabalho realizado com refugiados.

 

b. Serviço aos moradores de rua. Cada vez é maior o número de irmãos e irmãs que vivem na rua. A cidade de São Paulo é um exemplo gritante desta realidade. Apesar dos esforços da Pastoral do Morador de Rua, dos Movimentos e Novas Comunidades, há necessidade de envolver mais as comunidades e paróquias da Arquidiocese num trabalho conjunto de acolhimento e missão junto aos moradores de rua. Esta pastoral se faz com atenção, cuidado e preocupação pela inclusão social dessas pessoas. Este Plano considera importante continuar o trabalho missionário e social junto aos moradores de rua, num trabalho integrado com iniciativas já existentes: Vicariato do Povo da Rua; Arsenal da Esperança; Comunidade São Martinho; Toca de Assis; Missão Belém; Aliança de Misericórdia e outros. A Pastoral do Morador de Rua pode contribuir com as comunidades no desenvolvimento de trabalhos com essa população.

 

            c. Serviço aos doentes e enfermos. A falta de saúde é uma preocupação para todos. Cristo se preocupou com os doentes, deu atenção especial aos leprosos,  cegos e paralíticos. Jesus utiliza a parábola do Bom Samaritano para falar do amor e dos cuidados que devemos ter para com os que sofrem no corpo. Toda a cidade sofre com a precariedade dos serviços de saúde destinados à população carente. Daí a importância de atuar, como Pastoral da Saúde, em três grandes direções: prevenção, atendimento ao doente e luta pela conquista de políticas públicas de saúde, bem como de motivar e criar, onde não existe, essa pastoral; orientar os agentes da pastoral da saúde sobre a missão junto aos enfermos, por meio da presença da comunidade, da sagrada Eucaristia e do anúncio da Palavra de Deus; refletir com os profissionais da saúde, governantes e  administradores de hospitais, a questão da saúde pública e influenciar na formulação de políticas públicas; incentivar a participação dos agentes de saúde e comunidades nos cursos e simpósios da Pastoral da Saúde promovidos na Arquidiocese; revitalizar o Movimento de Saúde e participação nos Conselhos Gestores de Saúde.

 

d. Serviço aos dependentes químicos. A dependência química é uma das principais causas da violência na cidade. Ela provoca a degradação de milhares de pessoas, especialmente jovens e institui o horror em muitas famílias de nossas comunidades e paróquias, invadidas por assaltos, fugas, seqüestros e todos os tipos de violência. “O mal provocado pelos traficantes recebe a mesma reprovação dada por Jesus aos que escandalizam os pequeninos, os preferidos de Deus (cf. Mt 18,7-10), afirmou Bento XVI, no encontro com a comunidade da Fazenda da Esperança em Guaratinguetá. A Arquidiocese deseja, por meio da Pastoral da Sobriedade, acolher o dependente químico e sua família; articular os serviços nesse campo; promover encontros com os agentes de pastoral para troca de experiências e informações; dar atenção especial ao sofrimento das famílias; enfrentar o desafio de criar espaços de recuperação; unir esforços com as instituições locais cujo interesse é proteger as famílias e seus filhos do tráfico de drogas; trabalhar pela reintegração do dependente à sua família, à comunidade e à sociedade; abrir espaços para grupos já constituídos (Narcóticos Anônimos, Alcoólatras Anônimos, Amor Exigente e outros).

 

         e. Serviço aos detentos, egressos e suas famílias. O Estado de São Paulo possui o maior contingente de detentos do país, na sua maioria migrantes, pobres e pessoas de etnia negra. Grande parte deste contingente está em nossa cidade.  É grave a situação dos detentos: pessoas cumprem pena em recintos muitas vezes desumanos, marcados pela aglomeração, tortura, ausência de programas de reabilitação, comércio de armas, drogas e medo. Diante desta realidade, é indispensável: levar a Palavra de Deus aos detentos como semente de vida nova; colaborar  para que os direitos humanos sejam garantidos; e ajudar na construção  da paz, dentro e fora dos presídios. Este Plano reforça que é necessário: exigir das autoridades a humanização das prisões e a garantia de um sistema prisional que se preocupe com a reeducação e reintegração social do detento (Lei 7.210, 11/07/84); realizar visitas missionárias de escuta, celebração, evangelização e partilha aos presídios; conscientizar a comunidade sobre a realidade dos detentos; utilizar a assessoria da Pastoral Carcerária da Arquidiocese, para orientar as paróquias e comunidades sobre a metodologia própria da pastoral carcerária.

 

f. Defesa da vida não-nascida, das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, dos jovens, idosos e da população indígena. Jesus Cristo assim definiu sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10,10). A Igreja, fundada para continuar a missão de Jesus, deve defender a vida em todas as suas manifestações. Este Plano reúne algumas preocupações essenciais em relação à defesa da vida da criança, do adolescente, dos jovens e idosos.

 

Em relação à criança. A vida deve ser respeitada desde a concepção no ventre materno. É responsabilidade de todos combater qualquer tipo de violência contra a criança, que começa, muitas vezes até antes do nascimento, pelo aborto provocado; combater o trabalho infantil, prostituição, violência doméstica, psicológica e sexual, tráfico, por meio de denúncias e campanhas de conscientização e mobilização. É também necessário o envolvimento dos cristãos na implementação e acompanhamento de políticas públicas éticas e coerentes com a visão cristã e a defesa e promoção dos direitos das crianças. Outras medidas que fortalecem a defesa da vida são: a participação nas ações, fóruns, Conselhos Tutelares, Conselho Municipal da Criança e Adolescente (CMDCA) e outras frentes de representação, bem como a divulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) nas paróquias e comunidades; o incentivo, apoio e implantação da Pastoral da Criança nas paróquias e comunidades; o cuidado com a catequese de iniciação, com metodologias adequadas para a educação na fé das crianças no contexto em que vivem hoje, com atenção especial aos pais e responsáveis, são formas eficazes de defesa da vida infantil.

 

Em relação ao adolescente. Este Plano reforça a necessidade de estimular, nas paróquias e comunidades, a Pastoral dos Adolescentes, de modo a motivar sua perseverança e o crescimento na fé. Este trabalhão poderá ser mais profícuo se orientado pela mística e missão da Pastoral do Menor, que deverá ser reorganizada na Arquidiocese, nas Regiões Episcopais e paróquias. Outros passos importantes nessa direção são: capacitar e formar permanentemente os membros da Pastoral do Menor que atuam nas diversas frentes de trabalhos; criar e/ou fortalecer os serviços de atendimento, acolhida e defesa do adolescente; investir, animar e formar grupos de coroinhas, catequese de perseverança, grupos de convivência e outros.

 

Em relação aos jovens. As comunidades são convidadas a apoiar, motivar, acompanhar e participar da vida dos jovens, principais envolvidos nos grandes desafios gerados pela globalização. Para esta faixa da população, que requer cuidados especiais, este Plano propõe: renovar a opção preferencial pelos jovens de maneira eficaz e realista (DAp 446); fortalecer o Setor Juventude na Arquidiocese e Regiões, para que possa articular os grupos que evangelizam os jovens, numa dinâmica de partilha de métodos e pedagogia que ajude a evangelizar a juventude; promover uma cultura que favoreça a identificação dos jovens com ideais de dignidade, liberdade, solidariedade, justiça, paz, diálogo e espiritualidade; marcar a presença da Igreja nas escolas com celebrações, encontros, cursos, palestras, ensino religioso, divulgação da Campanha da Fraternidade e outras atividades que envolvam os jovens; privilegiar processos de educação e amadurecimento na fé, como resposta de sentido e orientação da vida e garantia de compromisso missionário; acolher e apoiar iniciativas dos jovens, grupos de teatro, dança, música, literatura e outras iniciativas que contribuam para o crescimento de sua fé; urgir políticas públicas integradas, integradoras, orgânicas e processuais para a juventude, criando condições básicas de educação, trabalho, cultura e lazer para os jovens; oferecer uma catequese atrativa para os jovens que os introduza no conhecimento do mistério de Cristo e de sua Igreja, e dar maior tempo, espaço e atenção à preparação para o sacramento da Crisma; realizar um Congresso Missionário, com a temática da evangelização da juventude na cidade de São Paulo.

 

Em relação aos idosos. Este Plano propõe como atividades a favor da vida dos idosos: conhecer, estudar e pôr em prática o Estatuto do Idoso; implantar a Pastoral da Pessoa Idosa, com seu método, pedagogia e conteúdo; criar ou aproveitar espaços de acolhida e convivência para os idosos, nas paróquias e comunidades.

 

g. Serviço à população indígena. A Arquidiocese de São Paulo possui descendentes de povos indígenas, que também estão abertos à evangelização. São propostas deste Plano: dar assistência religiosa e missionária às comunidades indígenas existentes em São Paulo; apoiar, acompanhar e incentivar as comunidades indígenas, na luta quanto à posse da terra, moradia, saúde, auto-sustentação e educação; propor, reivindicar e apoiar a população indígena na busca de políticas públicas que garantam igualdade de direitos; divulgar as dificuldades destes povos junto à comunidade paulistana, em vista de maior conscientização e solidariedade.

 

2. Comunidades de discípulos em missão (DAp 164-179), como sujeitos da ação evangelizadora

Todas as comunidades estão a serviço da ação missionária, razão que justifica sua existência. São elas, especialmente, a Arquidiocese, as Regiões, Setores, as paróquias e comunidades. “O reconhecimento prático da unidade orgânica e da diversidade de funções assegurará maior vitalidade missionária e será sinal e instrumento de reconciliação e paz” (DAp 162).

 

2.1. A Arquidiocese, lugar privilegiado de comunhão e participação

O primeiro  espaço de motivação, articulação, comunhão e  missão é nossa Arquidiocese. Ela estimula e conduz “uma ação pastoral orgânica renovada e vigorosa, de  maneira que a variedade de carismas, ministérios, serviços e organizações se orientem no mesmo projeto missionário para comunicar vida no próprio território” (DAp 169), para responder de forma eficiente aos  desafios da realidade urbana.

Para que a Arquidiocese seja realmente este espaço de articulação e motivação, é preciso promover uma avaliação e a devida reformulação das Assembléias Arquidiocesanas de Pastoral, do Conselho Arquidiocesano de Pastoral - CAP e do Secretariado Arquidiocesano de Pastoral.

A Arquidiocese deve proporcionar ocasiões (encontros, retiros, cursos...) que despertem e alimentem, nos sujeitos da evangelização, uma espiritualidade missionária e de comunhão e participação. Fundamentada no princípio de subsidiariedade, a Arquidiocese estabelece linhas e princípios comuns para sua organização, através do Plano de Pastoral, diretórios e outras orientações.

 

2.2. Regiões

As Regiões e os Vicariatos Episcopais dão expressão à vida pastoral da Arquidiocese e são os motivadores das paróquias, comunidades, pastorais, movimentos, associações, setores, comunidades educativas e de vida consagrada, para que se insiram ativamente, “de modo harmônico e integrado, no projeto de pastoral” (DAp 169).

Para cumprir suas funções, as Regiões devem ter o Conselho Regional de Pastoral (CRP), regido por um regulamento e outros importantes espaços para a vida da Região (reuniões do clero, Comissão de Presbíteros, reuniões dos padres coordenadores dos Setores, Conselho de Assuntos Econômicos).

Devem as Regiões: organizar a aplicação do Plano de Pastoral nos Setores e Paróquias, sob a orientação da Arquidiocese; incentivar a solidariedade entre os Setores e Paróquias e a partilha de bens econômicos e pastorais (projeto Igrejas-Irmãs); motivar a criação de novas comunidades territoriais e ambientais e, contando também com recursos financeiros da Arquidiocese, adquirir terrenos para as comunidades, principalmente nas periferias; coordenar, animar e articular a ação pastoral da Região.

 

2.3. Setores

É missão dos Setores: incentivar a aplicação do Plano de Pastoral da Arquidiocese, bem como avaliar sua execução, sustentados pela Região Episcopal; preparar, animar e acompanhar os agentes de pastoral e as comunidades, para ajudá-los a viver sua vocação missionária de anunciar Jesus Cristo e seu Reino; dialogar com as lideranças do bairro e instituições locais, tais como, associações, hospitais, escolas, universidades e presídios, em busca de objetivos comuns; descobrir as necessidades e os anseios da população e das comunidades, de modo especial dos pobres, para melhor partilhar recursos humanos, materiais e financeiros, em vista do exercício da caridade e do serviço; ajudar a Arquidiocese a dar respostas criativas aos apelos religiosos e sociais emergentes; reunir  o Conselho Setorial de Pastoral, como espaço de partilha, articulação e efetivação da Pastoral de Conjunto; propiciar às paróquias e comunidades espaços de formação e troca de experiências; promover a animação missionária permanente.

 

2.4. Paróquia, comunidade de comunidades

       A paróquia não é apenas um grupo de pessoas que se reúnem. É uma comunidade de comunidades e grupos, espaço de fé e vida, vivência fraterna e solidária, que “acolhe as angústias e esperanças dos homens, anima e orienta a comunhão, participação e missão” (SD 58). Onde houver necessidade, sejam criadas comunidades e outras organizações eclesiais para vitalidade da ação evangelizadora.

A paróquia é o centro irradiador da Palavra de Deus. É necessário anunciar o que Jesus Cristo “fez e ensinou” (At 1,1), pois ela “é chamada a ser o espaço onde se recebe e se acolhe a Palavra. Sua própria renovação exige que se deixe iluminar de novo e sempre pela Palavra viva e eficaz” (DAp 172). Ao mesmo tempo, é o lugar da liturgia, da Eucaristia e da caridade. Como lugar privilegiado da experiência concreta de Cristo, é chamada a ser casa de oração e escola de comunhão, célula viva da Igreja” (DAp 170).

A “renovação da paróquia exige atitudes novas e conversão pessoal e pastoral de todos aqueles que estão a serviço nela. A primeira exigência é que o pároco seja autêntico discípulo de Jesus Cristo, porque só um sacerdote apaixonado pelo Senhor pode renovar uma paróquia. Mas, ao mesmo tempo, deve ser ardoroso missionário que vive o constante desejo de buscar os afastados e não se contenta com a simples administração” (DAp 201).

Estar a serviço da vida é a tarefa essencial da comunidade paroquial. Para isso, ela deve responder com eficiência aos apelos da iniciação cristã, da educação e celebração da fé, da valorização  dos carismas,  serviços e ministérios, organizados de modo comunitário e responsável.

As paróquias devem buscar sempre a unidade e a comunhão com o Setor, Região e Arquidiocese, priorizando e assumindo o Plano de Pastoral Arquidiocesano nos seus trabalhos e participando dos projetos e programas propostos.

A renovação da paróquia pressupõe: reformular estruturas (superar uma pastoral de manutenção); descentralizar os serviços paroquiais e setorizar o seu território; empenhar-se na formação dos paroquianos para o discipulado e a missão, por meio de escolas da fé (leitura, meditação e contemplação da Palavra de Deus, cursos de teologia, de Bíblia, formação específica de cada grupo, retiros e encontros de espiritualidade e estudo; valorizar e incentivar os ministérios e a missão; superar a burocracia desnecessária; ter secretários e secretárias paroquiais bem preparados pelas Regiões Episcopais para desempenhar seu papel evangelizador, o qual é essencial.

 

2.4.1. Paróquias em formação

Algumas comunidades já possuem a dinâmica e a estrutura necessárias para se transformarem em paróquias: pastorais organizadas, CPP, CAE, estrutura física (espaços para celebração, atividades pastorais e casa paroquial). Essas comunidades também devem assumir o Plano de Pastoral, tornando-se sujeitos de evangelização e vida eclesial dinâmica.

 

2.4.2. Comunidades Eclesiais de Base

As CEBs (DAp 178) são uma experiência significativa de vivência eclesial,  na busca da relação entre fé e vida.  Têm na Eucaristia, na Palavra de Deus e na oração comunitária  a fonte de sua mística e são a expressão viva da opção preferencial pelos pobres, excluídos e marginalizados. A Arquidiocese possui muitas comunidades eclesiais de base, das quais a maioria está na periferia. Elas podem ajudar a renovar as paróquias, com sua força missionária e seu testemunho de fé.

Tendo em vista a continuidade da ação missionária na periferia de São Paulo, a Arquidiocese de São Paulo estimula a formação de novas comunidades, para que a  Palavra de Deus chegue a todos e ilumine os problemas do dia-a-dia. A Arquidiocese incentiva a participação dos membros das comunidades eclesiais de base nos encontros Arquidiocesanos e regionais das CEBs, valoriza e investe no protagonismo dos leigos, pois as CEBs são espaços de crescimento e atuação para eles.

 

2.4.3. Novas comunidades

As Novas Comunidades surgem pela ação do Espírito Santo, segundo determinados carismas ou dons que se colocam a serviço da Igreja. Oferecem um meio privilegiado de vivência evangélica, utilizam as mais diferentes metodologias para envolver os leigos a se integrarem na ação evangelizadora. São sinais da experiência cristã no meio da sociedade secularizada e hostil à Igreja. São verdadeiros sujeitos missionários da Igreja na cidade. Por meio das Novas Comunidades, a Igreja Particular pode penetrar em ambientes onde ainda não se encontra presente. A Arquidiocese incentiva as Comunidades Novas e os Movimentos, e lhes confia serviços, aos pobres e a promoção da nova evangelização. Ao mesmo tempo, incentiva- as para a vivência da comunhão eclesial e a participação de seus representantes nos conselhos pastorais das diversas instâncias da Arquidiocese.

 

2.5. Organismos co-responsáveis pela missão

Para que possa desempenhar  com eficácia sua missão, é de fundamental importância que a comunidade paroquial tenha seus trabalhos pastorais articulados pelo Conselho de Pastoral Paroquial e pelo Conselho de Assuntos Econômicos. Estes Conselhos precisam estar animados por uma espiritualidade de comunhão missionária (cf. DAp 203).

A Arquidiocese de São Paulo oferece instrumentos que permitem efetivar, avaliar, motivar, cobrar e acompanhar os Conselhos Pastorais e de Assuntos Econômicos na realidade das paróquias e comunidades, como o Plano de Pastoral, o Plano de Manutenção da Arquidiocese, o Diretório dos Sacramentos e outros.

 

2.5.1. Organismo de reflexão e ação pastoral paroquial – CPP

O Conselho de Pastoral Paroquial (CPP), obrigatório pelo Código de Direito Canônico (Cânon 536), representa as forças vivas da paróquia e deverá ser formado por discípulos-missionários preocupados em fazer chegar a todos o Evangelho. Presidido pelo pároco, planeja, lidera, coordena e avalia a ação missionária da   comunidade. Deve ser o centro de comunhão e participação de toda vida paroquial.

Entre as funções do CPP, destacam-se: promover a formação espiritual, doutrinal, bíblica, missionária  e humana dos fiéis; planejar a ação missionária da comunidade a fim de que todos os espaços paroquiais sejam atingidos pela Palavra de Deus; coordenar e avaliar as atividades  de acordo com as orientações do Plano de Pastoral da Arquidiocese; garantir a articulação da paróquia com o Setor, a Região e a Arquidiocese.

O CPP deve ser orientado por um regulamento (funções; tempo de permanência dos membros, periodicidade das reuniões) que garanta a representação das forças evangelizadoras da paróquia e comunidade, como também a renovação dos seus membros, garantindo assim processos democráticos de participação e comunhão.

 

2.5.2. Organismo de sustentação à pastoral – Conselhos de Assuntos Econômicos

O Conselho de Assuntos Econômicos, obrigatório em cada Paróquia, pelo Código de Direito Canônico (cânon 537), deve ajudar o pároco na administração dos recursos e bens patrimoniais da comunidade, bem como zelar para que todos os funcionários tenham seus direitos garantidos, conforme a legislação vigente. Junto a toda a comunidade paroquial, trabalhará para obter os recursos necessários, de maneira que a missão avance e se faça  realidade. Deve também apoiar e dar suporte financeiro às iniciativas pastorais e missionárias.

Deve a Arquidiocese elaborar um regulamento (funções, composição, tempo de permanência dos membros, periodicidade das reuniões) para os Conselhos de Assuntos Econômicos.

Devem as Regiões Episcopais e Setores Pastorais promover encontros de divulgação e estudo do Plano de Manutenção da Arquidiocese de São Paulo com os tesoureiros das paróquias e comunidades; e promover as coletas previstas (terceiro Domingo do Advento - Coleta para a Evangelização, encerramento da Quaresma - Campanha da Fraternidade, Sexta-Feira Santa - Lugares Santos, domingo entre 28 de junho e 4 de julho - Óbolo de São Pedro, penúltimo domingo de outubro –Missões e Santa Infância), como expressão concreta de solidariedade eclesial e missionária.

 

3. Discípulos com vocações específicas (DAp 184-224)

3.1. Vocações e ministérios. São propostas do 10º. Plano de Pastoral: despertar as paróquias e comunidades para a cultura vocacional; realizar a Pastoral Vocacional nas diversas instâncias da Arquidiocese, por meio de equipes de animação vocacional, em vista de uma Igreja ministerial (ministros ordenados e não-ordenados, religiosos, religiosas, leigos e leigas consagradas); despertar e animar os jovens para a vocação ao matrimônio e à família; valorizar os serviços e ministérios presentes na vida da paróquia e comunidade; realizar encontros de formação e retiros com os ministros leigos; assumir ações concretas nas comunidades, tais como animação vocacional, encontros e retiros com os jovens, orações pelas vocações, incentivo para celebrar o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o Dia Mundial de Santificação do Clero, o Domingo do Bom Pastor, o Mês Vocacional; contar com subsídios e assessoria do Centro Vocacional Arquidiocesano (CVA).

 

3.2. Ministros ordenados. A formação permanente do clero (cursos de atualização, retiros e encontros), na mística da comunhão e na espiritualidade missionária, é uma das exigências da vida presbiteral. É imprescindível cuidar da formação dos seminaristas, a partir das orientações e diretrizes da CNBB. O Diretório para o Diaconato Permanente, em preparação, tratará da formação, vida e ministério dos diáconos permanentes.

 

3.3. Consagrados e consagradas. Atualmente, na Arquidiocese estão presentes 158 Congregações Masculinas e 267 Congregações Femininas (cf. RQ 2005-2008). A Igreja em São Paulo estimula, vivamente, as comunidades de religiosos e de vida consagrada, que possuem uma rica experiência de vida cristã, espiritualidade e ação pastoral e missionária, para se integrarem na vida e na ação arquidiocesana, assumindo as propostas deste Plano.

 

3.3.1. Comunidades de religiosos e religiosas. Os consagrados e as consagradas têm muito a oferecer a  partir do seu carisma: educação, jovens, saúde, comunicação etc. A Arquidiocese e a paróquia precisam abrir espaços para que coloquem sua experiência a serviço da ação missionária, pois nenhuma vocação religiosa se sustenta fora da identidade missionária da Igreja. É importante criar espaços nas reuniões do clero e dos conselhos de pastoral das Regiões e Setores para que possam dar a conhecer o trabalho, a metodologia e o carisma dessas comunidades. Além disso, é preciso contar com a contribuição da CRB.

 

3.3.2. Institutos missionários. São convidados a partilhar sua experiência missionária com a Igreja em São Paulo.

 

3.3.3. Institutos Seculares. Espera-se de seus membros que sejam testemunhas vivas da Palavra de Deus e de amor à Igreja em todos os ambientes em que se encontram presentes. O trabalho pastoral dos membros dos Institutos Seculares enriquece a missão da Igreja inserida no mundo.

 

3.3.4. Leigas consagradas. A Igreja em São Paulo conta com dezenas de pessoas consagradas a seu serviço. Sejam acolhidas e estimuladas outras pessoas que desejam servir com seu trabalho e vida à Arquidiocese.

 

3.4. Família, discipulado e compromisso missionário. Mudanças profundas vêm repercutindo no modo de ser, na compreensão e na valorização da família. Este Plano tem consciência de que esta é a primeira das comunidades eclesiais, lugar e escola de comunhão, Igreja doméstica e primeiro espaço de iniciação na fé. Nesse espírito, propõe: promover nas paróquias e comunidades uma cultura de valorização da família e do matrimônio; celebrar missas da família, de aniversário de casamento, bênçãos das casas, festas das famílias, orações em família; incentivar e apoiar, com subsídios, os grupos de Novena de Natal e Quaresma; realizar uma catequese missionária que envolva a família; visitar as famílias dos catequizandos, por meio dos catequistas e/ou membros da Pastoral Familiar; acompanhar e preparar os jovens para o sacramento do matrimônio e a paternidade e maternidade responsáveis. Outras atividades previstas são: realizar uma Pastoral Familiar missionária, que desperte na vida das famílias atitudes de acolhimento, orientação e acompanhamento; capacitar os agentes da Pastoral Familiar e as equipes de preparação para o sacramento do matrimônio, para conhecer e aplicar a doutrina da Igreja sobre a família; valorizar o Encontro de Casais com Cristo e sua atualização diante dos desafios da evangelização na cidade; organizar encontros com casais em segunda união, com sensibilidade, acolhida e acompanhamento; orientar e facilitar o acesso de casais em segunda união para o processo de nulidade. É importante: participar de campanhas e reivindicações de políticas públicas a favor da vida e defesa da família; dar atenção às famílias em situação especial, principalmente marcadas pela violência doméstica contra a mulher e a criança; denunciar a violência doméstica; combater a violência contra a mulher, conhecer e divulgar a Lei Maria da Penha; conscientizar o homem sobre o respeito em relação à mulher, em vista de se formarem gerações masculinas livres de preconceitos.

 

3.4.1. Famílias em situação especial. Mulheres, crianças, adolescentes e jovens são as principais vítimas das mazelas que invadem as famílias. As mulheres suportam muitas vezes sozinhas a responsabilidade pelos cuidados, a educação e a transmissão da fé aos filhos. São freqüentemente desvalorizadas em sua dignidade e em sua participação na sociedade e na Igreja, em virtude de um machismo dissimulado ou explícito. É indispensável criar uma cultura de respeito à mulher em todos os âmbitos da vida, como também, responsabilizar o homem pelo machismo e abandono do lar.

 

3.5. Leigos, discípulos em missão. Para despertar a consciência da identidade, da vocação e missão dos leigos, na busca de uma presença efetivamente transformadora no mundo e na Igreja, este Plano tem como propostas: apoiar e fortalecer o Conselho de Leigos da Arquidiocese (CLASP), o CLERB da Região Belém e o CLERI da Região Ipiranga; implantar o Conselho de Leigos nas Regiões Brasilândia, Lapa, Santana e Sé; apoiar as organizações do laicato; proporcionar encontros e momentos de formação para os leigos, como a realização da Semana de Formação, Encontros e as Conferências de Teologia do Laicato; formar as lideranças leigas a partir das grandes linhas das Constituições Lumen Gentium e Gaudium et Spes; incentivar e criar condições para que os leigos possam estudar teologia (cursos nos Setores e Regiões, na Faculdade de Teologia); valorizar e implementar os ministérios das exéquias ou esperança, da Palavra de Deus, do Matrimônio e Batismo; criar ministérios que respondam às necessidades da evangelização (da acolhida, da escuta, do aconselhamento, da visitação, da coordenação); incentivar e apoiar os leigos, nas paróquias e comunidades, para uma atuação política e cidadã, formando-os a partir da Doutrina Social da Igreja; incentivar a vivência eclesial pela troca de experiências e convívio entre os diversos movimentos, pastorais e organismos, no respeito mútuo e na busca de caminho comuns; estimular a participação permanente dos leigos nos processos de planejamento, decisão e avaliação da ação evangelizadora da Igreja; levar os leigos a descobrirem e vivenciarem sua espiritualidade nos ambientes onde vivem e convivem como sal e fermento; celebrar o Dia Nacional dos Leigos e Leigas na festa litúrgica de Cristo Rei, com a participação de todos os organismos, pastorais, comunidades eclesiais, associações de leigos e novas comunidades; divulgar os meios de comunicação próprios, como a página eletrônica www.claspnet.org.br, e outros meios e informações relacionados à vocação laical. 

 

3.5.1. Comunidades em ambientes profissionais. São as comunidades de professores, profissionais da saúde, associações comerciais, artistas, esportistas, funcionários públicos, políticos, dos profissionais da comunicação, entre outros, que muito podem contribuir para consolidar a presença evangelizadora da Igreja na cidadeÉ expectativa da Arquidiocese que acolham o convite de partilharem,  com renovado empenho, da ação missionária da Igreja. Este Plano propõe repensar o Vicariato dos Construtores da Sociedade.

 

3.6. Comunidades de situação ou de passagem, que aspiram a uma situação mais digna. Dentre estas, mencionamos as comunidades dos moradores de rua, dependentes químicos, da mulher marginalizada, dos catadores de papel e outros materiais  recicláveis, dos detentos, dos trabalhadores informais e ambulantes. Dezenas de pessoas dessas comunidades passam por momentos de sofrimento, rejeição e abandono. A Arquidiocese, por meio das pastorais sociais e das novas comunidades, deve ajudar esses grupos a se reunirem para rezar, refletir sobre a própria situação e descobrir juntos caminhos de solução.  

 

4. Iniciação cristã e formação permanente para a missão

Neste processo, o itinerário de formação privilegia os seguintes passos: encontro com Cristo, conversão, discipulado, comunhão e missão. Para que isso aconteça, é preciso: garantir nas paróquias e comunidades uma catequese querigmática e catecumenal; fazer da paróquia uma escola de preparação e formação de discípulos missionários; assumir a iniciação cristã, despertando para a ação; motivar, em todas as instâncias da Arquidiocese, o compromisso catequético permanente; investir na catequese de adultos e motivá-los à vivência da fé; criar uma catequese que fale ao coração das pessoas; organizar uma catequese diferenciada para os adultos; educar para o diálogo e para a unidade; promover a formação dos animadores pastorais na comunidade eclesial; incentivar a instituição do ministério de catequista, bem como todos os ministérios correlatos; adequar as Escolas da Palavra, escolas da fé, escolas de ministros e cursos de teologia para leigos, para que tenham como eixo principal a formação de discípulos-missionários.

 

4.1. Lugares do encontro com Cristo (DAp 240 – 275)

Entre eles, destacam-se a Palavra de Deus; a leitura Orante da Bíblia; a  Eucaristia; a celebração dominical da Palavra de Deus; a reconciliação sacramental; a oração pessoal e comunitária; a participação na comunidade de fé e amor fraterno; a identificação com Cristo na pessoa do pobre, do aflito e do enfermo.

 

4.2. Espaços de formação. São a família, a paróquia, as pequenas comunidades, as pastorais arquidiocesanas, os movimentos eclesiais, as novas comunidades, escolas, universidades e centros superiores de educação católica.

 

4.3. Formação específica. Compreende os Seminários e as casas de formação religiosa.

 

 

5. Missão ad gentes: compromisso missionário de todos os discípulos de Jesus Cristo

 

A renovação missionária da Igreja em São Paulo, proposta por este Plano de Pastoral, tem como sinal de maturidade a missão ad gentes. Nas palavras de Bento XVI, em seu discurso inaugural da V Conferência em Aparecida, a missão ad gentes se abre hoje a novas dimensões: “Os verdadeiros destinatários da atividade missionária do povo de Deus não são só os povos não cristãos e das terras distantes, mas também nos campos sócio-culturais e, sobretudo,  os corações.”  

A missão ad gentes, está a cargo da Comissão Missionária Arquidiocesana, COMIAR, com as seguintes preocupações:

a. Definição dos lugares de missão ad extra.

b. Formação de missionários: espaço de missão, cultura, língua, estratégias, contatos, conteúdo, tempo de duração, perfil.

c. Manutenção: apoio financeiro da Arquidiocese, a partir do auxílio das comunidades.

d. Envolvimento das congregações religiosas missionárias.

e. Organização e ampliação do COMIAR e dos COMIDIs nas Regiões Episcopais.

f. Projeto Missionário Sul 1 – Norte 1.

g. Desenvolver a proposta da Infância Missionária nas paróquias e comunidades.

h. Projeto Missão Jovem.

i. Santas Missões Populares.

 


 

Perguntas norteadoras para o Agir

 

1. Como viabilizar as propostas missionárias deste Plano de Pastoral, nos âmbitos da Arquidiocese, das Regiões Episcopais, dos Setores, Paróquias e Comunidades?

2. O que você considera necessário para que sua Paróquia ou Comunidade seja, de fato, missionária?

3. Como desenvolver o espírito missionário em toda a Arquidiocese?

4. Quais são as sugestões apresentadas no agir que você pode, de fato, realizar?

5. Como envolver mais as pastorais, movimentos, associações, escolas católicas, institutos e comunidades religiosas nas ações propostas neste Plano de Pastoral?

6. O que fazer para motivar discípulos-missionários para o trabalho missionário ad gentes?

7. Qual é a importância da formação do discípulo-missionário para a concretização da missão explicitada neste Plano?

 

 


 

Siglas

AD - Ad Gentes

ChL - Christifideles Laici

CIC - Catecismo da Igreja Católica.

DAp – Documento de Aparecida

DCE – Deus Caritas est

DGAE - Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010

DP - Documento de Puebla

DSD - Documento de Santo Domingo

EN - Evangelii Nuntiandi

GS - Gaudium et Spes

LE - Laborem Exercens

LG - Lumen Gentium

NMI - Novo Millennio Ineunte

PAMP - Projeto de Ação Missionária Permanente

PT - Pacem in Terris

RICA - Rito de Iniciação Cristã de Adultos

RM - Redemptoris Missio

RQ - Relatório Qüinqüenal 2005-2008.

SC - Sacrosanctum Concilium


 

IV. ANEXOS

 

1. Considerações sobre planejamento e missão da Igreja

 

Planejar é evitar improvisações, é prever, é projetar o futuro. É pensar antes qual é o melhor caminho a seguir. Ou planejamos ou improvisamos. O planejamento pastoral da Arquidiocese é uma ferramenta a serviço da missão da Igreja na cidade de São Paulo.

Quando o Mestre planejava suas ações, sempre era para revelar a vontade do Pai e cumpri-la. Foi assim em sua caminhada para Jerusalém, nas conversas que teve com a samaritana, com Nicodemos e outras personagens do Evangelho. Foi assim também nos sinais que realizou. Quando devia tomar uma decisão forte, como a escolha dos apóstolos e discípulos que deram fundamento à Igreja, o Senhor orava e depois agia.

O ato de planejar não substitui e nem nega a ação do Espírito Santo, que sempre chega em primeiro lugar. O protagonismo missionário do Espírito é maior do que o planejamento. A função do planejamento é orientar as ações para que não fiquem dispersas. É facilitar a descoberta dos caminhos do Espírito que orienta a Igreja, é impulsionar para o encontro com Jesus e sua Palavra.

Não podemos fazer do plano um instrumento burocrático que mata o espírito da missão e do discipulado. Ele tem que impulsionar, animar e mover, mexer com as paróquias, as comunidades, os movimentos, as pastorais, associações, enfim, todos os agentes missionários presentes na cidade.

O desafio do planejamento é unir a técnica e o carisma de Jesus. Se nos deixarmos atingir e guiar pelo Espírito, como no Cenáculo, e ser tocados por Jesus, faremos um planejamento em que a Palavra de Deus irá ecoar na cidade, como aconteceu em Jerusalém e desta para o mundo. A Igreja em São Paulo possui uma tradição de anúncio e testemunho da Palavra.

Esta reflexão

a. Reafirma a necessidade do planejamento pastoral, já preconizado por João XXIII, na carta ao episcopado latino-americano, em 08 de dezembro de 1961 (Ad Dilectos Americae Latinae Populos): um plano de pastoral para a Igreja na América Latina, que indicasse as medidas a serem tomadas, a curto e longo prazo, no campo específico da ação pastoral, e ainda orientações no campo socioeconômico.

b. Retoma os ensinamentos de Paulo VI, especialmente na Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, de 1975, de que temos que descobrir novas metodologias para anunciar o Evangelho, mas sempre com o cuidado de não negar seu conteúdo. Dizia Paulo VI que “a atividade pastoral não pode processar-se às cegas. O Apóstolo não corre no encalço do incerto e bate no ar (lCor 9,26). Hoje, foge à acomodação e ao perigo do empirismo. Um sábio planejamento pode oferecer também à Igreja um meio eficaz e um incentivo de trabalho” (discurso aos bispos da América Latina, em 13 de novembro de 1965).

c. João Paulo II nos alerta também sobre a necessidade da pastoral na cidade: “Hoje, a imagem da missão ad gentes talvez esteja mudando: lugares privilegiados deveriam ser as grandes cidades, onde surgem novos costumes e modelos de vida, novas formas de cultura e comunicação que, depois, influem na população.” (Carta Encíclica Redemptoris Missio, 37b). Planejar a ação pastoral é fazer um pouco daquilo que Jesus pediu, ou seja, lançar a rede na direção acertada e que João Paulo II reforçou, quando orientou a Igreja a “avançar para águas mais profundas” (Lc 5,4). O Evangelho descreve que os pescadores estavam jogando a rede em lugar errado. Hoje nos perguntamos se estamos anunciando Jesus de forma que todos possam compreender o Evangelho e que sua Palavra possa chegar a todos.

d. O mesmo esforço foi feito pelos bispos da América Latina. Reunidos com Bento XVI, na V Conferência do CELAM em Aparecida, eles sentiram “a urgência de que os agentes de pastoral, enquanto discípulos missionários, se esforcem para desenvolver: um plano de pastoral orgânico e articulado que se integre em projeto comum às paróquias, comunidades de vida consagrada, pequenas comunidades, movimentos e instituições que incidem na cidade, e que seu objetivo seja chegar ao conjunto da cidade(DAp  518b).

É interessante que o episcopado latino-americano, junto com o Papa, chame a atenção de que o planejamento deva ser feito em todos os níveis e esferas de Igreja, desde um pequeno grupo até a Arquidiocese. Todas as ações pastorais devem ser planejadas, no sentido de dar visibilidade ao anúncio do Evangelho. Talvez, como disse o Mestre, ninguém acende uma lâmpada para pôr embaixo da mesa e não é bom começar uma torre que não se pode terminar (cf. Lc 8,16; 14,28-30).

Nosso Cardeal, D. Odilo, constata que é uma exigência evangélica “redescobrir o valor da própria fé, a razão da pertença à Igreja e a alegria de crer. Uma fé apenas superficial é como planta sem raiz profunda que, ao primeiro sol quente, seca, ou é arrancada pelo vento forte. Nossa fé é preciosa. [...] A nova atitude missionária, tão necessária à Igreja Católica no Brasil, vai ser possível somente se houver católicos profundamente apaixonados por Jesus Cristo e serenamente amantes da sua Igreja. E disso nascerão também os desejados novos frutos da fé, através do testemunho da caridade e do serviço à sociedade e da edificação do mundo, segundo as propostas e valores do reino de Deus” (Herança apostólica e missão, www.org.br).

O plano de pastoral deve ir ao encontro de todas as manifestações do cotidiano da cidade, para influenciar com a Palavra os pequenos espaços, as paróquias, capelas, as comunidades, as novas comunidades de livre associação  (DAp 311), os grupos de rua, as pastorais, movimentos, as organizações, associações de bairro, escolas, universidades, os encontros, a vida política, cultural e do mercado.

Improvisar, num contexto heterogêneo e complexo como a cidade de São Paulo, seria uma ingenuidade pastoral, pois o Senhor mesmo nos alerta sobre a ação do mal que nega a vida, rompe a comunhão, nega a solidariedade e a ética.  Planejar é fazer um pouco o que Jesus ensinou, quando nos alertou para sermos “simples como pombas e espertos como serpentes, pois os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz e vivemos como ovelhas no meio de lobos” (cf. Mt 10,16; Lc 10,3 e 16,8).

Hoje, mais do que nunca, a Igreja nos convida a escolher os caminhos da vida, abertos pela fé, que conduzem à plenitude da vida, e a recusar os caminhos da morte que levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus e traçam uma cultura sem Deus e sem os seus mandamentos (DAp 13).

Missão é a razão de ser e de existir de uma organização, é o que dá legitimidade a sua existência. É o que mostra a direção da caminhada, define o ponto para o qual se deve orientar o máximo esforço de todos. A missão de anunciar Jesus Cristo e sua Palavra faz parte da identidade da Igreja. Para isso, a Arquidiocese de São Paulo se organiza em Regiões Episcopais, Setores, Paróquias e Comunidades, Pastorais, Associações e Movimentos, como também acolhe, com o coração de Mãe, todas as iniciativas que vierem a concretizar o seu espírito missionário.

O imperativo do Evangelho, “Ide e evangelizai todos os povos” (Mc 16,15) nos coloca diante do grande desafio de anunciar Jesus Cristo à cidade de São Paulo. O planejamento é um caminho para chegar lá. Mas não é a missão. A missão começa a acontecer quando a Igreja chega lá. Poderíamos dizer que a missão é a Igreja em movimento.

 

2. O novo Plano de Pastoral

 

O 10º. Plano de Pastoral não nega nem aposenta os demais. Ao contrário, reconhece e assume os planos anteriores, por uma perspectiva de continuidade e superação, naquilo que correspondem à missão no contexto atual da Igreja na cidade.

O 9º. Plano precisa ser atualizado e aperfeiçoado segundo as novas exigências da realidade e os novos enfoques eclesiais, estabelecidos nas referências teológico-pastorais, especialmente de Aparecida, e das Diretrizes da CNBB.

A principal razão que justifica um novo Plano de Pastoral é a complexidade dos problemas sociais, culturais e religiosos que devemos enfrentar como Igreja na  cidade de São Paulo, diante das mudanças da realidade. Complexidade de ação, de passos metodológicos, de heterogeneidade de pessoas e grupos, do inchaço de novas seitas e conseqüente êxodo dos católicos para outras denominações religiosas, de problemas no campo do trabalho, saúde, transporte, moradia, educação.

Por isso, é fundamental refletir sobre os passos de um planejamento em busca de um caminho seguro para todos. Um bom planejamento não dispersa recursos econômicos, humanos, técnicos, físicos, não só das comunidades e paróquias, mas da Arquidiocese, diante das ações de outras Instituições, governamentais ou não e de empresas particulares. Os planos de pastoral sempre expressam um pouco da caminhada da Igreja. Mas nenhum plano é definitivo, nem pode responder a todos os apelos e necessidades pastorais.

O 10º Plano quer ser um novo passo e uma continuidade no caminho da Igreja (cf. DAp 9) em São Paulo, para dar um novo impulso à evangelização da cidade (DAp 16). O planejamento é o desenho de caminhos comuns de evangelização da cidade, a partir do mandado do Senhor, que nos escolhe e envia para vivermos na santidade, como seus discípulos e missionários.

Atenta a Cristo, seu Mestre e Pastor, e consciente de que é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão (DAp 11), a Igreja em São Paulo busca, continuamente, rever e planejar ações pastorais que despertem e ofereçam novas respostas evangélicas às realidades e situações em permanente mudança. A Arquidiocese procura sempre uma metodologia apropriada à realidade dinâmica, variada e contraditória da cidade. Sua meta é apresentar caminhos, objetivos e propostas de ação pastoral, em forma de diretrizes e sugestões, para responder à moção do Espírito e aos desafios pastorais que sempre se modificam.

O melhor método é aquele que concretiza os objetivos propostos numa determinada realidade. Os agentes de  pastoral de cada paróquia e comunidade devem refletir permanentemente sobre a forma mais adequada à missão evangelizadora em seu espaço. Aqui se encontra, sem dúvida, a principal finalidade do Conselho de Pastoral das Paróquias.

Ampliar, reduzir, acrescentar e ajustar o 9º Plano, com elementos que se consolidarão no 10º Plano de Pastoral da Arquidiocese, é sinal de sabedoria, diante da complexidade dos desafios da evangelização na cidade.

O planejamento norteia as ações pastorais, para que não fiquem dispersas. Pode facilitar a descoberta dos caminhos do Espírito e impulsionar para o encontro com Jesus e sua Palavra. Um bom plano de pastoral renova e reorganiza a ação missionária, anima as comunidades, desperta para a missão toda a Arquidiocese, a fim de que os discípulos missionários sigam crescendo e amadurecendo em sua fé, para serem luz do mundo e testemunhas de Jesus Cristo, com a própria vida (DAp 16). Plano não é somente mais um manual para ser lido e guardado na gaveta da secretaria. Deve ser um estímulo para a ação pastoral alegre e criativa.

O conhecimento do Plano de Pastoral da Arquidiocese pode evitar ações isoladas que não têm a força da comunhão eclesial.

 

3. Pressupostos para uma pastoral de conjunto: comunhão e participação

 

Planejar pressupõe um método, um caminho, uma seqüência de passos articulados. O método empregado no planejamento é decisivo para a qualidade do plano. O modo de planejar apontará caminhos para a melhor forma de realizar a missão, com os recursos disponíveis (eficiência), de cumprir os objetivos (eficácia) e de atender às expectativas (efetividade).

Não existe nada que não seja planejado, como também não há planejamento total. Sempre há o imprevisto, por isso, planejar significa ir avançando, cada vez mais, da improvisação ao planejamento, do menos planejado ao mais planejado.

O método orienta, mas não engessa, não tolhe a criatividade, nem as iniciativas das comunidades, não se fecha a sugestões e propostas. Ao contrário, estimula e ajuda a caminhar. Os planos de pastoral devem manter certa flexibilidade nas ações e no uso dos recursos disponíveis e permanecer abertos a emergências e ao imprevisível do cotidiano.

Não basta planejar. O modo como se planeja determina a qualidade do plano. A metodologia que se usa é decisiva.

No processo de elaboração do 10º. Plano, a Arquidiocese reafirma e renova sua face de Igreja em comunhão e participação, de povo de Deus que quer ser, na sociedade, sinal e instrumento de salvação. O povo de Deus, movido pelo Espírito Santo, participa da elaboração do plano de pastoral, com as experiências acumuladas que lhe dão sabedoria, em espírito de colaboração, criatividade e esforço.

A metodologia do planejamento que desejamos deve corresponder a uma Igreja-comunhão, Povo de Deus, que busca ser sinal e instrumento de salvação. Deve envolver, de alguma forma, os diferentes sujeitos da evangelização ou os agentes da ação pastoral, impulsionar bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e leigos da Igreja Particular em São Paulo a agirem como discípulos missionários de Jesus Cristo. Sua adesão alegre e confiante a Deus Pai, Filho e Espírito Santo e à Igreja são pressupostos indispensáveis que garantem a eficácia do método (DAp 19).

A dinâmica de um planejamento com fundamento na comunhão exige de todos participação, responsabilidade, compromisso com a execução e a avaliação. Compromete todos os agentes na elaboração dos objetivos e propostas, na execução e na avaliação do Plano de Pastoral, mesmo que determinadas decisões permaneçam restritas a determinados setores, com diferentes competências.

Compete à Arquidiocese “estimular e conduzir uma ação pastoral orgânica renovada e vigorosa, de  maneira que a variedade de carismas, ministérios, serviços e organizações se orientem” (DAp 169) em direção do 10º Plano de Pastoral.

As Regiões Episcopais, paróquias, comunidades, pastorais e movimentos, associações, comunidades educativas e de vida consagrada são convocadas a se inserirem ativamente na pastoral orgânica da Arquidiocese, e assim “a evangelizar de modo harmônico e integrado” (DAp 169).

As reflexões, colaborações e sugestões  de todos os agentes de pastoral, ordenados ou não, das comunidades, das novas comunidades, de homens e mulheres de boa vontade e que amam a justiça e demais instituições que defendem a justiça e o direito à vida, sem dúvida, são de grande valia para juntos avançarmos, ainda mais, na missão de evangelizar.

A Arquidiocese espera que a comunhão e a cooperação do povo de Deus em São Paulo sejam formas de socializar as respostas aos desafios pastorais dos próximos anos, em vista da construção de uma cidade edificada sobre a verdadeira rocha, Cristo Jesus.

 

4. Alguns elementos do método ver, julgar e agir

 

O 10º. Plano assume, de acordo com as orientações da Igreja (DAp 19) o método ver, julgar e agir. “Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé, através de sua Palavra revelada e o contato vivificador dos sacramentos, a fim de que na vida cotidiana, vejamos a realidade que nos circunda à luz de sua providência e a julguemos segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e atuemos, a partir da Igreja, [...], na propagação do Reino de Deus, que se semeia nesta terra e que frutifica plenamente no Céu.”

O método ver, julgar e agir quer ajudar a contemplar Jesus, Caminho, a Verdade e a Vida, e a Igreja em comunhão. A Arquidiocese assume esse método, porque acredita que ele permite “articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e valorização com sentido crítico” (DAp 19), em vista do agir pastoral.

 

4.1. Conhecer o contexto da missão

 

Conhecer o contexto da missão é indispensável ao planejamento pastoral, para que o plano corresponda a um marco referencial objetivo.

O marco da realidade mostra quem somos, com base em fatos sociais, econômicos, políticos, religiosos, culturais e cotidianos. Analisa os problemas, suas causas e conseqüências. Os recursos das ciências sociais podem ajudar a evitar o risco de se ver a realidade desarticulada da dinâmica da vida defendida por Jesus.

A missão da Igreja não pode dispensar o conhecimento da realidade (cf. GS 4). É necessário compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu caráter tantas vezes dramático. Compreender a cidade não se faz apenas com o auxílio das ciências urbanas, antropológicas e teológicas, mas requer a experiência acumulada do pastor junto a seu povo, marcada pela sensibilidade e pelo amor.

Não podemos cair na tentação de fazer uma análise científica presa somente à racionalidade e à técnica, sem os dados da fé e da ética. Como discípulos missionários, buscamos conhecer a realidade para mudá-la à luz do Evangelho e das orientações da Igreja.

No conhecimento do contexto, é preciso evitar o objetivismo e o subjetivismo, ou seja, ver a realidade do povo do lado de fora do povo ou imaginar que o povo já sabe tudo e que tudo que o povo quer é sempre o melhor.

“Quem exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas” (DAp 44).  A visão da realidade não pode prescindir de Deus. “Só quem reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano” (Bento XVI, em DAp 42).

Para nós, o ver não é neutro ou indiferente. É sempre um discernimento da realidade pela ótica da fé, à luz do Evangelho, fonte da verdade e do sentido da vida, e da escuta do povo de Deus na cidade de São Paulo, de suas expectativas, alegrias, esperanças, angústias e necessidades. As mudanças que afetam o mundo inteiro não podem ocultar a ação da graça.

O 10º. Plano assume o método ver, julgar e agir de forma integrada e não fragmentada, isto é, o ver é observado a partir do olhar de Jesus, assim como o julgar e o agir estão enraizados nesse mesmo olhar. 

 

4.2. Observar as referências teológico-pastorais

 

O 10º. Plano quer anunciar e testemunhar a alegria e a esperança que nascem do encontro com o Senhor pela fé. “Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber. Tê-lo encontrado foi o melhor que aconteceu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29).

As referências teológico-pastorais que subsidiam o julgar e ajudam a desvelar o verdadeiro sentido da vida à luz da Palavra de Deus são a explicitação doutrinal (a Palavra de Deus, o Catecismo da Igreja Católica e os documentos básicos: Vaticano II, V CELAM, Diretrizes da CNBB, o 9º. Plano e o PAMP).

O marco doutrinal traz a riqueza da Igreja no seguimento de Cristo. Mostra como os discípulos missionários viveram e testemunharam o Evangelho na cidade, bem como a orientação da Igreja para os cristãos católicos enfrentarem o processo de secularismo existente na cidade. Em resumo, é colocar a cidade no coração de Deus e Deus no coração da cidade.

a. É uma resposta de fé à realidade sociopastoral. É iluminar a realidade à luz da Palavra de Deus, da vida da Igreja e dos documentos eclesiais. Mostra como devem ser a Igreja, a humanidade e o Planeta, segundo o projeto de Deus.

b. Aponta para o ideal, para a nova realidade que somos chamados a construir e a alcançar, a instauração da boa nova do Evangelho na vida das pessoas, na ação pastoral e nas estruturas sociais.

c. Realça os valores e princípios que devem orientar os serviços de pastoral. Os grandes princípios eclesiológicos, os aspectos da cristologia, antropologia, modelo de diocese ou paróquia que se quer ser, tipo de padre, de agente de pastoral.

d. A explicação doutrinal é aquela que ilumina os diversos setores de pastoral: família, jovens, catequese, terra, operários.

Falar em realidade, globalização, cidade, urbanização é escolher ferramentas que nos ajudam a interpretar o mundo. O que nos prepara para utilizá-las a serviço da pastoral e da transmissão da novidade do Evangelho é a experiência de oração, a intimidade com a palavra, a vida sacramental, especialmente eucarística, e vida na comunidade.

 

4.3. Transformar a realidade

 

Ação pastoral é intervir na realidade. Este é um ponto central. O mais importante na pastoral não é o plano, nem o planejamento, mas a ação, a comunidade trabalhando, movida pela ação do Espírito Santo. O Evangelho nos ensina que devemos unir a Palavra e a vida. “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Quem vê o discípulo missionário tem que ver Jesus.  Como discípulos missionários, buscamos conhecer a realidade para transformá-la à luz do Evangelho e das orientações da Igreja.  O planejamento e o plano devem ser expressão do seguimento a Jesus Cristo.

 

4.4. Avaliar, para melhorar

 

Avaliar é verificar se os objetivos foram atingidos. Não é hora de cobranças, de distribuir responsabilidade ou de fugir delas, nem de fazer de conta que tudo deu certo. Avaliação serve para melhorar o processo, aproveitar as descobertas feitas durante o trabalho, detectar erros para que não sejam repetidos. Consiste numa profunda e humilde revisão da ação pastoral, a partir dos resultados obtidos e das dificuldades encontradas. O plano precisa ser ajustado, corrigido e adaptado às circunstâncias e às situações de emergência. O plano é um meio, não é um fim. Precisa adaptar-se à realidade em transformação.

Quem avalia é o grupo que planejou e executou os trabalhos. Não é o coordenador sozinho, nem o padre. É importante ouvir e levar em conta os destinatários do trabalho. A avaliação deve ser realista, confrontada com os objetivos. A avaliação, para os discípulos missionários, é constante, pois está ligada à metanóia, ao processo de conversão, de revisão de vida individual, comunitária e institucional. A evangelização busca a conversão dos indivíduos e das estruturas da cidade.


 


 

Notas

[1] O objetivo geral do 10º. Plano de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo é o ponto de convergência dos caminhos de evangelização na cidade. Ele define e mostra a direção para a qual a Arquidiocese deve orientar a vida e a ação de todos os seus membros.

 

[2] São Paulo e a comunidade eclesial nasceram da mesma semente lançada pelos primeiros missionários que aqui chegaram. Entre eles, recordamos José de Anchieta, beatificado por João Paulo II, em 1980. Anchieta é intitulado Apóstolo do Novo Mundo, Apóstolo do Brasil, Apóstolo dos Índios, Fundador da Cidade de São Paulo, Curador de Almas e Corpos. Em 1553, aos 19 anos de idade, Anchieta aqui chegou na comitiva de Duarte da Costa, segundo governador-geral do Brasil. Veio com a missão de catequizar os índios. Em 1554, participou da fundação do Colégio de Piratininga, considerado o núcleo da cidade de São Paulo,  pois, ao redor do Colégio aos poucos se formou um povoado, batizado por Anchieta como São Paulo. Por sua ação pastoral e social, Anchieta contribuiu para a paz entre os portugueses e várias tribos. Acolhia os índios e os pobres como irmãos em Cristo, colocava-se a seu serviço. Cuidava da espiritualidade, atendia os doentes e feridos, abrigava os órfãos, defendia os nativos das humilhações dos conquistadores e incentivava os portugueses a respeitá-los. Escreveu prosa informativa e histórica, cantos, cartas, sermões, diálogos, autos, livros e versos de cunho religioso, ético, espiritual e pedagógico. Compôs uma gramática e um vocabulário tupi, escreveu em tupi um livrinho para os confessores e outro para assistir aos moribundos. É considerado o iniciador do teatro e da poesia no Brasil. O poema De Beata Virgine Dei Maria (O Poema da Virgem) é sempre lembrado quando se fala de Anchieta. O poeta paulista Guilherme de Almeida caracteriza o beato como santo, herói, mestre e poeta, em sua poesia Prece a Anchieta.

 

[3] Conhecido como Protetor das Crianças e dos Pobres, Padre Mariano de La Mata Aparício foi beatificado em 5 de novembro de 2006, às 10h00 horas, na Catedral da Sé. Natural de Palencia, Espanha, onde nasceu em 1905, Padre Mariano chegou ao Brasil em 1931, um ano após sua ordenação, e aqui desempenhou, com alegria, bondade e caridade, o ministério sacerdotal, por mais de 50 anos. Em São Paulo, trabalhou como professor do colégio e pároco da Igreja Santo Agostinho. Foi superior da vice-província dos agostinianos e diretor espiritual das Oficinas de Santa Rita de Cássia. Faleceu em 05 de abril de 1983, no Hospital do Câncer de São Paulo. Está sepultado na Igreja de Santo Agostinho, na Praça Santo Agostinho, 79, Estação Vergueiro do Metrô.

 

[4] Em São Paulo viveu o primeiro brasileiro a receber a honra dos altares.  Frei Antônio de Santana Galvão foi beatificado por João Paulo II em 1998. A cerimônia de canonização no Campo de Marte foi presidida por Bento XVI, em 11 de maio de 2007, quando o Papa veio a São Paulo para presidir a V Conferência Geral da América-Latina e do Caribe, em Aparecida. Junto com Irmã Helena Maria do Espírito Santo, Frei Galvão fundou o Recolhimento de Santa Teresa, na região da Luz, nas proximidades do centro da cidade e do rio Tietê. Trabalhou como arquiteto, mestre de obras e pedreiro, durante 14 anos, de 1774 a 1788, na construção do Mosteiro. De 1788 a 1802, 14 anos também, trabalhou na construção da Igreja,  inaugurada em 15 de agosto de 1802.  As pílulas de São Galvão consistem de frases em latim do Ofício de Nossa Senhora, escritas em minúsculos papéis e enroladas. Alguns fatos de sua vida revelam que as pílulas ingeridas com fé acalmaram as dores de várias pessoas. As Irmãs do Recolhimento passaram a confeccionar e a distribuir essas pílulas, o que fazem até hoje. Seu túmulo, na Igreja do Recolhimento da Luz, é local de contínuas e fervorosas peregrinações. Sua festa é comemorada em 25 de outubro.

 

[5] Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, a primeira santa brasileira, apesar de ter nascido na Itália, foi canonizada por João Paulo II, em 19 de maio de 2002, no Vaticano. Madre Paulina veio para o Brasil com dez anos de idade, em 1875. Desde criança, demonstrou um coração sensível, ansioso por viver a solidariedade e o amor sem medidas. Na fábrica, repartia seu lanche com outra menina, ainda mais pobre, e cuidava da avó enferma em casa. Em 1890, aos 25 anos, descobriu a vocação religiosa e fundou a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, no município de Nova Trento, no interior de Santa Catarina. Passava muitas horas em oração diante do Santíssimo. Morreu em 1942, aos 77 anos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, depois de muito sofrimento.

 

 

 

 

 

 

Apresentação de
Dom Odilo Scherer

 

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10º Plano de Pastoral - Síntese